Rio, 08 (AE) - A comissão de ética do PT condenou o ex-deputado Ernani Coelho, da tendência Articulação, pela compra de votos no 18.º Encontro Estadual do partido no Rio, em outubro do ano passado. O relatório de condenação recomenda que o ex-parlamentar, que teve gravadas conversas sobre as ofertas, seja suspenso por 18 meses dos seus direitos partidários (o que o levaria a perder o cargo de dirigente regional) e indica punições para outros envolvidos. O advogado de Coelho, Luiz Paulo Viveiros de Castro, afirma que houve uma montagem na fita para incriminar o seu cliente.
Além de Coelho, a comissão recomenda que sejam punidos com advertência pública os militantes Antônio Neiva e Levi Martins, por terem levado o caso à imprensa, e também que seja advertida a coordenação regional da Articulação, que acusou os denunciantes, Reginaldo Rosa e André Luis, de terem adulterado a fita.
A comissão inocenta Rosa e Luis, embora os critique por não terem feito oposição à iniciativa de Neiva e Martins de não levar o caso primeiro ao PT. Foram inocentados também o secretário do Planejamento, Jorge Bittar, e o deputado André Ceciliano, citados por Coelho.
"É grave a crise ética por que passa o Partido dos Trabalhadores", afirma a comissão no relatório. "Essas assertivas (...) parecem estar tornando-se lugar comum. Aliás, se há um ponto praticamente unânime recolhido pela comissão de ética entre os ouvidos durante o apuratório (sic), independente da corrente ou campo partidário em torno do qual se reúnem, é este." O documento é assinado pelos petistas José Luiz Fevereiro, Marcelo Chalreo e Mário Sérgio Pinheiro, e recomenda, além das punições, que o PT crie o cargo de ombudsman e garanta o sigilo do voto dos militantes.
Outros dois integrantes da comissão, Orlando Guilhon e Luis Carlos Oliveira, também da Articulação, não concordaram com o relatório e elaboraram voto em separado, inocentando Coelho. Houve uma tentativa de acordo entre as tendências para punir o ex-parlamentar e os outros envolvidos, mas isso não foi possível
porque a Articulação não o aceitou.
Um dos pontos da defesa de Coelho é que o caso foi manipulado como instrumento de campanha na prévia interna que, em 26 de março, escolheu entre Benedita da Silva (Articulação) e Vladimir Palmeira (Refazendo) o candidato a prefeito do Rio. A disputa foi vencida por Benedita.
A denúncia da compra dos votos foi feita por Rosa e Luis
militantes do PT de Guapimirim, cidade da região metropolitana, que gravaram a suposta tentativa de aliciamento. Em troca dos votos, seriam dados R$ 400 a um militante e empregos no Estado.
Um laudo sobre a gravação, feito pelo Laboratório de Fonética Forense e Processamento de Imagens da Universidade de Campinas (Unicamp), promete se tornar um dos pontos polêmicos do relatório, já que tanto a comissão como Viveiros de Castro pretendem usá-lo como prova de suas teses antagônicas.
Datado de 9 de fevereiro e assinado pelos peritos Ricardo Molina e Donato Pasqual Júnior, o documento diz que não houve montagem na fita que periciou. "Considerando que em nenhum ponto da gravação (...) foi detectada qualquer descontinuidade (...), a fita (...) pode ser considerada autêntica (...)", afirma.
Viveiros de Castro explica que a comparação entre a transcrição integral da gravação, feita no laudo da Unicamp, e a fita entregue a jornalistas na época do escândalo mostra que houve uma montagem com o objetivo de induzir os repórteres a acreditar nas acusações feitas contra Coelho.
Ele também critica a comissão de ética, "que não tem, pelo Estatuto do PT, poder para sugerir punições." Castro disse que "uma comissão de ética tem de ter um mínimo de isenção, e os três são soldados de uma tendência."

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