Brasília, 16 (AE) - O presidente da Comissão de Direitos Humanos da Câmara, Nilmário Miranda (PT-MG), decidiu hoje pedir o imediato afastamento do diretor-geral da Polícia Federal, João Batista Campelo, empossado na terça-feira, convencido de que ele teria recorrido à tortura durante investigações conduzidas na década de 70. A decisão foi anunciada após o depoimento do ex-padre e professor de Filosofia José Antônio Monteiro, que acusa o delegado de tê-lo torturado durante sessões de interrogatórios conduzidos na a década de 70, no Maranhão.
O diretor da PF poderá depor amanhã (17) à comissão, quando pretende informar sua versão dos fatos. Ele enviou nota aos deputados da Comissão de Direitos Humanos colocando-se à disposição para qualquer esclarecimento. Monteiro prometeu hoje assistir ao testemunho de Campelo, com o intuito de fazer uma acareação com ele. A convocação do delegado foi discutida hoje no Senado, e provocou divergências entre os parlamentares da Comissão de Constituição e Justiça (CCJ). Apresentado pelo senador Eduardo Suplicy (PT-SP), o requerimento foi rejeitado.
Hoje, diante de mais de 80 deputados que se espremiam na sala da comissão, Monteiro afirmou que Campelo o teria colocado em um pau-de-arara e acompanhado as sessões de torturas a que foi submetido. O ex-padre afirmou ainda ter sofrido ameaças de morte. "O Campelo ajudou a me amarrar", contou o professor, lembrando uma das vezes em que foi submetido ao pau-de-arara.
"Passei uma noite de horror", acrescentou, ao descrever uma das noites de tortura numa das salas da delegacia da Polícia Federal em São Luís, no Maranhão. Segundo ele, Campelo o pôs no pau-de-arara algumas vezes, amarrando-o com flanelas. "Quase sempre que eu me recusava a responder às perguntas, eu apanhava", disse. Segundo Monteiro, o delegado fazia perguntas "desproprositais" sobre supostos movimentos dos quais ele estaria participando.
Extravio - O depoimento do ex-padre foi aguardado com ansiedade pelos parlamentares. No aeroporto, após o desembarque, Monteiro ficou irritado ao descobrir que sua bagagem fora extraviada do vôo da Vasp que o trouxera. Além de roupas, sumiram os documentos que dariam base ao seu depoimento. Monteiro sofreu uma crise de hipertensão e foi atendido pelo Serviço Médico da Câmara e liberado minutos antes do horário marcado para o testemunho.
O silêncio no auditório da Comissão dos Direitos Humanos, que mal conseguiu acolher as mais de 300 pessoas que queriam acompanhar o relato, foi absoluto quando o professor começou a contar a tortura sofrida no pau-de-arara. "É doloroso o sofrimento de estar sem onde pôr o pescoço e querendo partir a coluna; meia hora numa posição dessas é doloroso."
Ele explicou aos parlamentares o trabalho que desenvolvia com as comunidades e os sem-terra em Urbano Santos, no Maranhão, o que, segundo ele, causou a fúria dos donos de terras, políticos e militares. Também contou que Campelo cometeu uma série de irregularidades ao prendê-lo. "O Campelo invadiu minha casa, arrombou meu arquivo de aço e destroçou a minha biblioteca", disse.
O próprio diretor-geral da PF, de revólver em punho, teria anunciado a prisão, segundo o ex-padre. "Perguntei ao Campelo qual era o motivo de eu estar sendo preso, e ele disse que isso não interessava." Segundo Monteiro, o jipe em que foi levado até a delegacia de São Luís demorou cerca de 10 horas para chegar, mas afirmou que em nenhum momento foi algemado, desmentindo a versão do diretor da PF. No início da semana, Campelo atribuiu os ferimentos observados no ex-padre ao uso de algemas. O professor também admitiu ter sido eleitor do ministro da Justiça, Renan Calheiros, quando ele disputou uma vaga na Câmara.

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