ORGANIZAÇÃO DA FESTA
Comissão admite ‘erros de cálculo’
O ex-presidente de Portugal Mário Soares, integrante da Comissão do Descobrimento, disse ontem que houve ‘‘pequenos erros de cálculo’’ na organização das comemorações dos 500 anos do Brasil em Porto Seguro (BA) – em que 141 manifestantes foram presos após confronto com a polícia. ‘‘Se os dois presidentes tivessem ido aos índios, a questão não tinha tomado o caráter que tomou’’, afirmou. Já o ministro da Cultura, Francisco Weffort, disse que ‘‘os pobres coitados dos índios’’ foram manipulados por interesses políticos e acabaram ‘‘pagando o pato’’.
Weffort e Soares participaram ontem, juntamente com o presidente de Portugal, Jorge Sampaio, e outras autoridades brasileiras, da inauguração da exposição ‘‘A Arte do Azulejo em Portugal no Século XX’’, no Museu Histórico Nacional, no Rio. Soares se disse surpreso com a intensidade das manifestações em Porto Seguro. ‘‘Esperávamos que houvesse algumas’’, disse. ‘‘Mas manifestações são normais para regimes democráticos; só acharíamos um fenômeno desagradável se fôssemos ditadores’’. Ele não quis comentar a atuação da polícia baiana na repressão aos manifestantes.
O prefeito Luiz Paulo Conde (PFL) tem opinião semelhante. ‘‘Acho que houve um pouco de desorganização’’, disse. ‘‘Deveria ter sido estudada uma forma de participação dos índios na comemoração e também dos negros’’. Diplomaticamente, o presidente de Portugal não quis dar entrevistas. Em seu discurso ressaltou a importância da união da cultura brasileira e da lusitana, e lembrou dos tempos em que combateu a ditadura em Portugal, afirmando: ‘‘Quem como eu já conspirou contra a ditadura, fez parte de greves, também jogou pedras na polícia e tem honra disso’’.
O ministro da Cultura, Francisco Weffort, secretário-geral do Partido dos Trabalhadores na década de 80 e um dos fundadores do partido, defendeu a ação da polícia em Porto Seguro. ‘‘A polícia teve uma ação preventiva’’, disse. ‘‘Como se pode dizer que foi uma ação violenta se apenas uma pessoa ficou ferida?’’, questionou. Na avaliação do ministro, o confronto foi estimulado por grupos políticos que tinham como objetivo fazer uma encenação para a mídia.
‘‘Os pobres coitados dos índios foram manipulados por políticos e pagaram o pato’’, afirmou, sem citar quais políticos teriam interesse na manipulação. ‘‘Aquilo foi um show para a mídia internacional que acabou arranhando a imagem do Brasil no exterior’’. Weffort ressaltou que, normalmente, manifestações respeitam o calendário e nunca são feitas em datas como o Natal ou o Dia de Finados. ‘‘Essa foi feita no dia 22 para criar um fato político’’, disse. ‘‘Foi como se alguém, convidado para um casamento, cuspisse na sala.’’

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