Comércio entre Brasil e Argentina deve cair 20% este ano
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domingo, 30 de maio de 1999
Por Vladimir Goitia 
São Paulo, 31 (AE)- A ligeira recuperação prevista para as economias brasileira e argentina a partir do próximo semestre não deve evitar a queda da corrente de comércio (exportações mais importações) entre os dois principais parceiros no Mercosul.
Estimativas preliminares feitas por especialistas da área de comércio exterior mostram que as transações comerciais entre o Brasil e a Argentina este ano devem cair cerca de 20%, passando de US$ 14,78 bilhões, em 1998, para menos de US$ 12 bilhões este ano. A Secretaria de Comércio Exterior, no entanto, estima uma queda de 25%.
O vice-presidente executivo da Associação de Empresas Brasileiras no Mercosul (Adebim), Michel Alaby, acredita que o comércio bilateral já está sendo afetado pelo processo recessivo nos dois países. No primeiro quadrimestre deste ano, por exemplo
as importações brasileiras da Argentina caíram 32,3%, em comparação com o mesmo perído do ano passado. Só em abril, a queda foi de 40%, passando de US$ 732 milhões para US$ 439 milhões. E as exportações de produtos brasileiros para a Argentina caíram 27,26% no mesmo quadrimestre. Ou seja, a tão temida "invasão" de produtos brasileiros ao mercado argentino, em decorrência da desvalorização do real, praticamente não se concretizou. A explicação para esse resultado inesperado (talvez) para alguns setores do comércio exterior dos dois países é paradoxal: a própria desvalorização.
De acordo com o secretário de Comércio Exterior, Mário Marconini, cada ponto porcentual de queda da moeda representa uma retração de meio ponto porcentual nas importações e cada ponto percentual de retração do Produto Interno Bruto (PIB) significa uma caída de 2% nas importações.
Isso quer dizer que os 30% de desvalorização do real significarão uma queda de 15% nas importações brasileiras este ano, e não só da Argentina. De acordo com números da Secex, o Brasil importou, nos quatro primeiros meses do ano, US$ 1,744 bilhão, volume bem abaixo dos US$ 2,576 de produtos argentinos absorvidos no mesmo período de 1998 .
"Com a ligeira recuperação da economia brasileira, prevista a partir do segundo semestre deste ano, as exportações argentinas para o Brasil tendem a recuperar-se", diz Alabay. Mas, acrescenta o executivo da Adebim, essa recuperação deve ficar restrita apenas a alguns produtos, entre eles alimentos.
Para Alaby, o mesmo fenômeno deve ocorrer com algumas exportações brasileiras. "As vendas externas de produtos manufaturados devem começar a recuperar-se apenas a partir do primeiro trimestre do próximo ano", diz Alaby. O setor mais afetado no contexto atual das duas principais economias do Mercosul é, certamente, o automobilístico. Os veículos de passeio são o principal item da pauta de exportações do Brasil e da Argentina no comércio bilateral.
De janeiro a abril, por exemplo, as exportações de veículos argentinos para o Brasil caíram 80% e os carros brasileiros para o mercado argentino viram o mercado argentino retrair-se em 70%. O setor de autopeças brasileiro também está sentindo essa contração do mercado argentino, por ser o segundo item na pauta do País. Vale lembrar que a produção de veículos na Argentina caiu 54% no primeiro quadrimestre.
Calçados - Enquanto alguns setores que produzem bens duráveis com maior valor agregado vêm sentindo os efeitos da crise brasileira e argentina, outros, entretanto, têm por que comemorar. A exportação de calçados cresceu 40% no primero quadrimestre. Mas, explica o secretário de Comércio Exterior, essa "explosão" não se deve à desvalorização, mas ao fim do regime de adequação no setor, que eliminou a alíquota de importação dentro do Mercosul.
Acordos setoriais - Michel Alaby, da Adebim, acredita ser necessário adotar uma série de medidas para não deixar a corrente comercial entre os dois países cair ainda mais. Primeiro, diz ele, seria importante buscar alguns acordos setoriais para restringir, voluntariamente, as exportações até haver uma recuperação da economia argentina e brasileira. "Essa restrição voluntária seria importante para evitar atritos comerciais como esses que começaram depois da desvalorização do real", explica Alaby. De acordo com ele, a imposição de barreiras comerciais de forma unilateral não só desgastam a imagem do Mercosul como criam uma "area cinzenta" entre os empresários dos dois países.
O secretário de Comércio Exterior, Mário Marconini, explica que um grupo de técnicos, do qual faz parte junto com seu colega argentino Félix Peña, vem monitorando constantemente os setores que podem ser afetados com um aumento excessivo nas exportações. "Até agora, não verificamos qualquer prejuízo e, mesmo a área têxtil argentina estar pressionando, não sentimos necessidade alguma de usar medidas para restringir as exportações", explica Marconini.
Para ele, o uso de barreiras de forma unilateral danifica a imagem dos quatro países do bloco. "Estamos em uma fase de reestruturação de preços relativos no Mercosul", acrescenta o secretário. Segundo ele, o Brasil fez (a desvalorização) o que tinha a fazer e foi para bem do País e, consequentemente, para o bem da região.


