Da Sucursal

Kraw Penas/Folha de LondrinaTransformaçãoComerciantes viram a Rua XV de Novembro se transformar, até se tornar o que é hoje, sem jamais perder o charme que encanta geraçõesAvenida Luiz Xavier, número 41. As portas estão fechadas, as luzes da vitrine iluminam o espaço vazio. No interior da loja, alguns objetos empoeirados e caixas de papelão. O prédio de dois andares, no início do calçadão da Rua das Flores, abrigou desde 1932 uma tradicional relojoaria, joalheria e loja de artigos para presente.
A empresa encerrou as atividades no ano passado, mas a proprietária Ellen Assme ainda vive nos fundos da casa. Ela é uma das ‘‘sobreviventes’’ da época em que o calçadão ganhou status de centro comercial e de serviços sofisticado, com cafés, confeitarias, restaurantes e casas importadoras.
Filha de Alberto Assme, imigrante da Letônia, Ellen tem lembranças da rua sem o calçadão, colocado há 25 anos. Ela recorda dos passeios pela Cinelândia, considerada um dos principais centros de lazer dos curitibanos. ‘‘Havia muita gente chique, bem arrumada, com chapéus, anéis e jóias valiosas. Eu gostava muito de ir às chamadas sessões ‘pãoduro’ de cinema, onde assistíamos a três filmes, das sete e meia da noite até a uma hora da madrugada, pagando apenas uma entrada.’’
Cinemas como o Arlequim, Curitiba e Rivoli transformaram-se em magazines e em casas comerciais. O Cine Palácio, que ocupava o andar térreo do Edifício Moreira Garcez, desapareceu após um incêndio ainda nos anos 70. E o Cine Ópera deixou de funcionar por falta de público.
Os personagens famosos que passaram pela Rua XV também habitam a memória daqueles que há várias décadas vivem ou trabalham por lá. José Melchides, funcionário do bar Mignon há quase 30 anos (o bar foi aberto em 1925), lembra do travesti Gilda, que ‘‘brigava com todo mundo mas era divertido, como os palhaços de hoje’’.
Ele cita também a Maria do Cavaquinho, andarilha que carregava um cavaquinho sem cordas e sempre brincava com os frequentadores do bar. ‘‘Nessa época, até o chope era servido com calma, para a espuma ficar mais cremosa’’, comenta Melchides.
Personagens anônimos também fazem parte da história da XV. Maria Karazai, que trabalha como vendedora desde 1956 nas lojas de tecido da família Tacla, já está atendendo a terceira geração de clientes que passam pela XV. ‘‘Comecei na 5ª Avenida, em frente ao Bondinho, com 17 anos de idade. Depois que me aposentei, não acostumei a ficar em casa e voltei a trabalhar, hoje na Tacla Tecidos. O patrão fala que eu vou me aposentar duas vezes.’’
Poucos metros adiante, Manoel Rodrigues Garcia, o ‘seu’ Manolo, prepara as bombas de chocolate, quindins e madrilenhos saboreados pelos curitibanos há 52 anos. Ele trabalha e vive na Confeitaria das Famílias desde 1958, quando deixou a Galícia (Espanha) para vir para Curitiba. Aprendeu a fazer os doces e salgados com o parente Jesus Terzado, fundador da loja. ‘‘Lembro dos ônibus que iam para o Alto da XV e dos desfiles de Carnaval, antes da chegada do Calçadão’’, diz ‘seu’ Manolo, ainda com farinha nas mãos, depois de servir mais uma bandeja de doces no balcão da confeitaria.

mockup