Nova York, 12 (AE) - A Promotoria Federal de Nova York continua investigando vários brasileiros envolvidos com a dupla de empresários Oscar de Barros e José Maria Teixeira Ferraz Neto
presos pelo FBI dia 31, em Miami, contra quem pesam acusações de lavagem de dinheiro do narcotráfico e corrupção de funcionários da Prefeitura de São Paulo em favor da empresa americana MetroRED. Acossados pelas investigações, e querendo dissociar-se o mais rápido do incômodo escândalo, empresários e comerciantes da rua 46, conhecida como rua dos brasileiros, estão mandando seus empregados depor contra os dois.
Em depoimento aos promotores, hoje pela manhã, um arquiteto e um garçom, usados como laranjas pelos dois, disseram que Barros e Ferraz usavam a empresa de remessas Vigo para suas transações. A empresa está sendo investigada pelo FBI por uma suposta remessa de US$ 500 mil, ocorrida em 1998.
Hélio de Oliveira Gusmão, de 59 anos, um santista que está há 40 anos nos Estados Unidos, dono da Vigo, negou as acusações. Ele justificou a possível investigação por sua conexão com o Brasil e também por problemas anteriores: em 1994, a Vigo pagou multa de US$ 1,6 milhão ao governo, num inquérito de lavagem. Seis de seus empregados foram presos, quatro deles ainda cumprem pena. "Aquilo que aconteceu foi um incidente isolado, praticado por funcionários em pequenas agências de nossa imensa organização", defendeu-se Gusmão.
Segundo o garçom e o arquiteto, os promotores lhes exibiram documentos e estavam interessados em obter deles detalhes das operações, bem como em identificar outras conexões de Barros e Ferraz.
O teor das perguntas faz supor que os promotores ainda não têm provas suficientes contra eles. "O sujeito que me interrogava exibia papéis com nomes e queria saber se eu conhecia várias pessoas da rua", contou o garçom. "Assim eles não vão chegar a lugar nenhum, porque eu conheço todo mundo", queixou-se.
Barros, de 56 anos, e Ferraz, de 46, também estão no centro do caso do dossiê Cayman, uma coleção de documentos, aparentemente forjados, que denunciariam a existência no exterior de contas bancárias do presidente Fernando Henrique Cardoso, de alguns de seus principais aliados e membros de seu gabinete. O objetivo da papelada era causar embaraços eleitorais na campanha de 1998.
A prisão da dupla sob as acusações de lavagem e corrupção, somada à publicidade negativa do dossiê, provocou pânico no pequeno mundo da comunidade brasileira da Rua 46, onde os principais empresários e comerciantes estão ligados por uma cadeia de negócios paralelos.
Hoje, na hora do almoço no restaurante Emporium, e em conversas nervosas que foram até a happy hour do restaurante Via Brasil, correu uma aposta para saber quem seria o próximo a prestar depoimento ou ser preso. A presença do garçom e do arquiteto, saudados como estrelas do dia, desencadeou a maior boataria.
Na lista dos possíveis presos ganhou disparado o doleiro James Jamil Deegan - personagem que tem um pé no tanque de lavagem e outro na capa do dossiê Cayman.
Em todas as rodas, porém, ninguém queria ver seu nome ligado aos dos empresários. Criou-se uma corrente para queimá-los: "Barros era um pão-duro, queria roubar sozinho", queixou-se um ex-sócio. "Bem feito que foi preso", aplaudiu.
Tânia Omara, há 24 anos na rua, apontada por vários vizinhos como sendo sócia de Ferraz na loja Coisa Nossa, entre 1993 e 1994, distanciou-se dele: "O homem era apenas um balconista na minha loja", disse. "Tinha boa aparência, bom papo, mas tive que despedí-lo e há cinco meses, ele apareceu aqui, com carrão e chofer; achei que tinha ficado rico, sei lá como."
Um mineiro cinquentão, ex-parceiro de Ferraz noutra empreitada nebulosa, disse que ouviu dele detalhes da operação de corrupção na MetroRED: "Eu não sabia qual era a empresa, porque isso ele não abriu, mas Ferraz me disse que pagava US$ 10 mil para um funcionário azeitar a máquina da Prefeitura de São Paulo, enquanto ele vendia a coisa por 100 vezes mais para os americanos."
"Os dois caíram porque foram ambiciosos", explica uma pessoa. O interlocutor se diz "especializado em lavagem de dinheiro há 30 anos" e explica: "Nesse ramo, todos têm de dividir com a rataria, mas eles não deixavam nem uma migalha" - a tese era muito parecida com a do ex-sócio que aplaudiu a prisão.
Numa certa hora chegou na roda o doleiro Jamil. Sempre metido em ternos elegantes, ele é figura respeitada na rua - já teve muito dinheiro e influência na rua 46, até ser preso, em 1990, por servir de banqueiro para os narcotraficantes do cartel de Medelín. Solto em 1994, é talvez o personagem mais folclórico da rua dos brasileiros.
Jamil contou uma conversa recente com Barros: "Ele me disse que as duas melhores maneiras de ganhar dinheiro eram drogas ou política, e que ele tinha descoberto um veio de ganhar com políticos, sem me revelar o segredo." Ele completou: "O segredo dos negócios feitos em segredo é o segredo."
Jamil é réu no mesmo processo de Barros e Ferraz. Está em liberdade enquanto seus advogados negociam com o FBI uma data para sua apresentação à Corte Federal de Miami. Ele admitiu que é amigo dos dois. Conta que Ferraz lhe deve US$ 70 mil, de um negócio anterior. Mas, com os dois entrando pelo cano e com o FBI atrás dele, Jamil anunciou, candidamente: "Vou ter de depor contra eles."
Os interlocutores balançaram a cabeça em sinal e aprovação. "Não há nada que eu possa fazer para salvar a pele deles, agora é cada um para si."

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