O reflexo da dependência da cidade à usina se faz sentir de imediato no comércio. As lojas ficam desertas a maior parte do tempo e os comerciantes estão endividados. Alguns comerciários também estão com salários atrasados, contou Carlos Kazan, proprietário de uma loja de confecções. ‘‘Se não recebemos dos clientes o nosso funcionário também fica comprometido’’, afirmou.
Kazan informou que os funcionários da usina movimentam 90% do comércio. ‘‘Damos crédito a eles. De uma certa forma, dependemos da pontualidade dos pagamentos deles’’, considerou. No final do ano de 1999, o movimento no comércio foi 50% menor que o ano anterior. ‘‘Sem receber o 13º salário os empregados não gastaram nada’’, disse Kazan. Ele relatou que os comerciantes da cidade estão solidários com os trabalhadores. ‘‘A greve é justa’’, afirmou, mostrando dezenas de promissórias vencidas. Segundo Kazan, a maioria dos lojistas está pagando juros em banco.
Dona de restaurante, Aparecida Maria Ribeiro Freitas, de Porecatu, contou que, descapitalizados, os trabalhadores deixaram até de comprar marmitex. ‘‘As vendas caíram 80%’’, disse a comerciante. Aparecida Freitas apóia a greve, mas reconhece a dependência da usina sobre a vida de todos na cidade. ‘‘Eu digo que muitas vezes os trabalhadores parecem escravos brancos.’’
Localizada no Norte do Estado, o município de Porecatu tem cerca de 14.500 habitantes, de acordo com o último censo. O prefeito Dionisio Santos Souza informou que o município arrecada cerca de R$ 500 mil mensais. ‘‘Temos uma folha de pagamento de R$ 276 mil mensais’’, declarou o prefeito.
Uma dívida de R$ 15 milhões com o INSS, além de R$ 9 milhões de precatórios pendentes deixam a economia do município vulnerável. ‘‘A dependência de empregos na cidade leva a população a encarar a Usina Central Paraná como a única alternativa de trabalho’’, disse Souza. As denúncias de irregularidades na empresa são conhecidas pelo prefeito, que espera providências dos governos estaduais e federais. ‘‘Os órgãos competentes têm que fiscalizar.’’
O prefeito petista, que é professor de português e literatura, não esteve presente nas negociações sobre a greve que mantém a usina parada nos últimos dias. ‘‘Poderia soar como oportunismo’’, avalia. (M.B.)

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