Líder mais conhecido do Movimento dos Trabalhadores Rurais Sem Terra (MST), José Rainha Júnior, começa a ser julgado na terça-feira pelos assassinatos do fazendeiro José Machado Neto e do soldado da Polícia Militar, Sérgio Narciso da Silva, na cidade de Pedro Canário, no extremo norte do Espírito Santo, onde ocorreu o crime, em 5 de junho de 1989. O júri, previsto para durar dois dias, deve atrair pelo menos 2,5 mil sem-terra à sede do pequeno município de 25 mil habitantes.
José Rainha é acusado de co-autoria dos assassinatos, por ter ajudado a organizar a invasão de sem-terra à fazenda Ypuera, de propriedade de Machado, que foi morto a tiros pelos sem-terra quando foi averiguar a ocupação, ao lado de Narciso e outras duas pessoas. O líder dos sem-terra afirma que, na época, estava no Ceará. Se for condenado, pode ser sentenciado de 12 a 30 anos de cadeia por cada morte.
‘‘Nos depoimentos do inquérito, ninguém mencionou que ele tivesse participado do tiroteio’’, recorda-se o delegado aposentado Luiz Fernando Faustini, responsável pelo inquérito sobre o crime. A principal prova contra Rainha é o depoimento do motorista José Jorge Guimarães, o ‘‘Zé Côco’’, contratado para levar de caminhão os sem-terra que ocuparam a fazenda de Machado, na madrugada do dia anterior ao assassinato.
Considerado a mais importante das cinco testemunhas de acusação nos autos do processo, Guimarães descreveu o réu como ‘‘de rosto bem cheio’’ e ‘‘de cabelos castanhos cacheados bem cheios’’. O advogado Aton Fom Filho, responsável pela defesa de Rainha, junto com o deputado federal Luiz Eduardo Greenhalgh (PT-ES) e Jovelino Strozake, já adiantou, em outras fases do processo, que a descrição é um ponto falho no depoimento.
‘‘Zé Côco’’ disse ter conhecido Rainha no trajeto para a fazenda, quando foi obrigado a parar para que ele e outras pessoas subissem no caminhão e a mudar do rumo original para o qual havia sido instruído - indo, então, em direção à propriedade de Machado. No depoimento à justiça, ‘‘Zé Côco’’ disse que o réu levava uma pequena arma embaixo da camisa, quando o encontrou - mas em entrevista ao ‘‘Jornal da Tarde’’, publicada em 8 de novembro de 1995, ele afirmou que Rainha carregava uma metralhadora.
O líder do MST aparece novamente no relato do crime como tendo encontrado com os invasores na Ypuera, e depois, organizando uma reunião em outro assentamento, também em Pedro Canário, com os sem-terra que fugiram da fazenda, após o tiroteio. Na reunião, ele teria incentivado os invasores a cantar um hino dos sem-terra e os aconselhou para fugir do local, por causa das mortes.
As referências a Rainha no processo podem ser pouco claras, mas a maioria dos depoimentos da ação indicam que os invasores da fazenda, cerca de 60, foram incentivadas a participar do movimento por um argumento falso - o de que a Ypuera já teria sido comprada pelo governo para ser distribuída a assentados. A propriedade, de 1,5 mil hectares, continua a pertencer à família de Machado, e sua viúva, Aline Machado, afirma que ela sempre foi produtiva.
O principal responsabilizado pela convocação sob falso pretexto é José Bezerra de Souza, o ‘‘Zé Paraíba’’, também acusado de ser quem iniciou o tiroteio no qual morreram Machado e Narciso. Os depoimentos apontam também que os dois morreram sob emboscada. Com Amaral e Messala Lemos, agricultor amigo do fazendeiro, eles teriam andado até a mata onde estavam os invasores porque a estrada havia sido fechada com tábuas com pregos, conhecidas como ‘‘jacar钒.
Ainda na estrada, foram vistos três sem-terra. Um deles seria ‘‘Paraíba’’, que atirou em reação à ordem de prisão de Narciso, e escondeu-se, com os outros dois, na mata. Narciso deu dois tiros para o chão, como advertência, antes de ser atingido no peito por um dos diversos tiros que saíram na mata. Em seguida, Machado foi baleado no rosto - o projétil que o atingiu jamais foi achado. A investigação da PM, depois do crime, apurou que, na árvores da mata, foram pregadas várias tábuas, indicando que seriam locais para que os sem-terra pudessem atirar em quem se aproximassse.

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