Começa Operação Mandacaru; população cobra ação permanente de combate ao tráfico
PUBLICAÇÃO
segunda-feira, 29 de novembro de 1999
Por Angela Lacerda 
Salgueiro, PE, 29 (AE) - A Operação Mandacaru, de combate ao plantio e tráfico de maconha no sertão pernambucano, começou hoje com uma demonstração de força. Quatro helicópteros, dois barcos, cinco caminhões do Exército, três da Marinha, cinco viaturas da Polícia Federal e 100 policiais federais, mais de 20 fuzileiros navais e 13 homens do Exército - alguns encapuzados - participaram da primeira ação de erradicação da droga em Orocó, a 599 quilômetros do Recife, numa base na margem do Rio São Francisco. Até o meio-dia, os sobrevôos dos helicópteros haviam identificado 45 plantios de maconha num raio de 25 quilômetros do local.
Apesar do aparato policial, a Operação Mandacaru ainda não tem a confiança de parte da população, dos políticos e até da própria polícia. As pessoas lembram que muitas ações já foram feitas na área do Polígono da Maconha sem um resultado duradouro.
Outros, como o prefeito de Floresta, Sérgio Jardim (PMDB), criticam o excesso de divulgação da operação, o que, segundo ele, deve ter afastado os traficantes da região. Todos cobram uma ação permanente. "Senão, quando o Exército e os federais deixarem o local, vai explodir o número de assaltos", afirmou o chefe de policiamento da Polícia Rodoviária Federal (PRF) em Pernambuco, Rinaldo Barros. "Os criminosos e traficantes costumam tirar o atraso depois de uma ação repressiva."
De janeiro a outubro, a PRF-PE registrou 81 assaltos, 21 tentativas de assalto, dois assassinatos, três saques e dois sequestros na área do Polígono da Maconha. Nessa região, maior produtora de maconha do País, têm destaque os municípios de Cabrobó, Belém do São Francisco e Orocó. Salgueiro funciona como centro exportador da erva e é nesta cidade que está instalado o quartel-general da Operação Mandacaru.
No ano passado, a Polícia Federal destruiu 2,7 milhões de pés de maconha na região, em cinco operações. Neste ano, até novembro, foram erradicados 1,5 milhão de pés, em duas operações. De acordo com o coordenador das ações de erradicação da maconha dentro da Operação Mandacaru, o delegado da Polícia Federal, Francisco Martins, a sistemática atuação da PF na área tem reduzido a produção e mudado a forma de plantio. "Eles deixaram de fazer plantações extensas, passando a fazer várias menores para dificultar a localização", afirmou Martins, que está no comando de 200 policiais federais vindos de todo o Nordeste, Amazonas e Distrito Federal. "Em relação ao ano passado, o número de lavouras caiu pela metade".
Martins lembra que um dos maiores obstáculos para se acabar com a produção da maconha é sua rentabilidade. Uma saca de 20 quilos de cebola - que tem o ciclo de cultivo semelhante ao da maconha (quatro meses) - rende ao plantador R$ 1,00, enquanto um quilo de maconha rende R$100,00, chegando ao consumidor por R$ 500,00.
Diferente - O coordenador da Operação Mandacaru, vinculada à Secretaria Nacional Antidrogas, general de reserva Gilberto Serra, não comunga com nenhuma das desconfianças ou suspeitas de insucesso do projeto. Ele afirma que desta vez a operação é diferente. Não somente por integrar vários órgãos e Ministérios - Exército, Marinha, Aeronáutica, PF, PRF, Polícia Militar, Receita Federal, Funai, Ibama e Judiciário. Nem por ser a maior já feita pelo Governo Federal, envolvendo cerca de 1.500 policiais (sem incluir os PMs). Nem por ser o mais caro investimento do Governo Federal na região - R$ 7,5 milhões, quando uma operação rotineira da PF na área custa em média R$ 80 mil.
O grande diferencial desta operação, de acordo com o general, é que ela tem um compromisso de continuidade e é complementar a um outro projeto, o Moxotó-Pajeú, que pretende dar condição ao pequeno produtor da região de sobreviver de culturas lícitas, através de créditos de financiamento do Banco do Nordeste. O Moxotó-Pajeú já liberou R$ 22,3 milhões, quantia que deve chegar aos R$ 50 milhões no final do ano. Até 2003, o projeto prevê a liberação de R$ 400 milhões em financiamento para atividades agrícolas e também piscicultura e caprinocultura. O projeto inclui assistência e orientação técnica aos agricultores.
Quanto às críticas relativas à divulgação da operação, o general disse que o objetivo não é o de prender traficantes. "Será uma operação duradoura e nós vamos atrás de quem está por trás do tráfico e da produção", argumentou.
A Operação Mandacaru vai abranger 20 municípios - 15 de Pernambuco e 5 da Bahia - numa área total de 40 mil quilômetros quadrados, onde vivem cerca de 450 mil pessoas. A duração prevista é de 60 dias. Depois desse período, o pessoal da inteligência do Exército permanecerá na área para fazer diagnósticos da situação. "Se houver necessidade, a força-tarefa volta", garantiu o general Serra. "Vamos acompanhar incansavelmente o programa".


