Começa nos EUA julgamento de brasileiro acusado de homicídio7/Mar, 17:26 Por Renan Antunes de Oliveira, especial para a AE MODESTO, EUA, 7 (AE) - Está em andamento desde ontem, na Corte Superior de Stanislaus, na Califórnia, o julgamento do brasileiro Wedson Rosa de Morais, de 36 anos, acusado de duplo homicídio, ocorrido em 13 de janeiro de 1997. Apesar de ter sido preso em flagrante e confessado o crime, Morais declarou-se inocente, opção legal que lhe deu o direito ao julgamento. A promotoria pede pena de morte. O júri pode levar três semanas para decidir o caso. O caso levou três anos para chegar ao tribunal. Incomum na Justiça americana, a demora ocorreu porque advogados, peritos médicos forenses e até um juiz declararam-se impedidos de atuar no processo, por serem amigos das vítimas, pessoas notáveis na sociedade da cidadezinha de Newman, local do crime, a 150 quilômetros de São Francisco. Nos bastidores, os advogados do brasileiro tentam um acordo para que ele seja declarado insano. Psiquiatras apontados pela Corte, porém, atestam que ele está bem. O crime ocorreu na cozinha da casa onde Morais vivia com a mulher, a professora americana Jean Cardoza e os dois filhos, hoje com 5 e 7 anos. Numa banal discussão doméstica sobre uma conta de 700 dólares, ele teve um acesso de fúria e, com facas que estavam na pia, matou os avós da esposa, Gerrald e Amelia Hunt, dois professores aposentados, ambos de 79 anos, e tentou matar a sogra, Lois Miranda. No processo, a promotoria reconstituiu a cena com diagramas, para não exibir as fotos, dramáticas. O duplo homicídio ocorreu na frente das crianças. Amelia levou o primeiro golpe. Gerrald tentou defendê-la, com uma panela, mas também foi esfaqueado e morto. A sogra, ferida, fugiu e, da casa de um vizinho, chamou a polícia. Segundo a promotoria, Morais foi preso em flagrante, na calçada, perseguindo a sogra com a faca e gritando "vou matar esses americanos" - frase que traz um componente racial ao caso. Morais não tinha antecedentes criminais nem de doenças mentais. Goiano, de Anápolis, veio para os EUA em 1982. Vivia com a família de favor, no 2.º andar do casarão dos Hunt. Tinha um caminhão e fazia fretes. O negócio estava no início e ele usava o cartão de crédito das vítimas para abastecer o veículo. A cobrança de uma conta foi o estopim do crime. Morais tem pouca chance de escapar de uma sentença pesada: os Hunt eram muito queridos na cidade. Dizem que até o durão chefe de polícia Mike Brady, ex-aluno deles, chorou ao atender o caso. "Eles o receberam em casa, davam apoio financeiro, mas foi em vão", afirma a aposentada Katie Scholler na primeira fila do tribunal. "Morais os pagou com uma morte horrível, isso é imperdoável." Ressentimento - "Eu vivia espezinhado pela família", queixou-se o brasileiro, em entrevista na cadeia, na véspera do início do julgamento. "Todo mundo os vê como dois santos, mas eles não me deixavam falar em português com meus filhos, queriam me expulsar de casa; isso ninguém sabe." Mas Morais admite que nada justifica o crime. "Foi um espírito que tomou conta de mim uma possessão demoníaca, em estado normal nunca faria uma coisa dessas." O Consulado Brasileiro em São Francisco nomeou o pastor Eugênio Piacentini, de uma igreja pentecostal, para acompanhar o caso. Ele visitou Morais domingo. "Encontrei um homem arrependido", diz.

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