Começa marcha de sem-terra a Brasília
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segunda-feira, 17 de fevereiro de 1997
Agência Folha 
Edu Garcia/Agência EstadoNa estradaLíder do MST, José Rainha, fala ao celular durante concentração dos sem-terra na Praça da Sé. Cerca de 600 trabalhadores sem terra deixaram a capital paulista rumo a Brasília. A caminhada tem o apoio logístico da Igreja Católica e será traduzido em hospedagem em igrejas e casas paroquiais para os sem-terra de todo o País durante todo o trajetoSÃO PAULO - O líder do Movimento dos Trabalhadores Rurais Sem Terra (MST) no Pontal do Paranapanema (SP), José Rainha Júnior, afirmou ontem que até acredita que o presidente Fernando Henrique Cardoso tem boas intenções para promover a reforma agrária. O problema que FHC é refém de suas alianças políticas. A declaração foi feita ontem, em São Paulo, durante a saída dos cerca de 600 sem-terra em direção a Brasília, onde planejam juntar cinco mil pessoas para protestar contra a política de reforma agrária. Rainha disse que o MST não é inimigo do governo. Queremos apenas terra para plantar. Para o líder do MST, não era para Fernando Henrique criticar os sem-terra. O passado político do presidente é diferente do que ele (FHC) pratica hoje.
Os trabalhadores rurais vão chegar em Brasília em 17 de abril, quando completa um ano a chacina em Eldorado de Carajás, no Pará. Na época, 19 sem-terra foram assassinados. Segundo o advogado dos sem-terra, deputado federal Luiz Eduardo Greenhalgh (PT-SP), até hoje não foi realizado o julgamento dos policiais militares e civis que são acusados pelo massacre.
O percurso da caminhada será de cerca de mil quilômetros e vai durar dois meses. Os sem-terra vão caminhar 20 quilômetros diariamente, em média. Outros 850 sem-terra vão se juntar à caminhada intitulada Marcha Nacional do MST, Reforma Agrária, Emprego e Justiça. Eles vêm do Mato Grosso, Minas Gerais, Espírito Santo, Rio de Janeiro e Bahia.
A caminhada de protesto do MST rumo a Brasília tem o apoio logístico da Igreja Católica. O apoio será traduzido em hospedagem em igrejas e casas paroquiais para os sem terra durante todo o trajeto. Algumas paróquias também estão arrecadando alimentos para serem doados aos agricultores.
Apoiamos a marcha porque seus objetivos são justos, diz d. Orlando Dotti, presidente da Comissão Pastoral da Terra (CPT), órgão da Conferência Nacional dos Bispos do Brasil que cuida da questão agrária. D. Dotti cita entre os objetivos da marcha que têm o apoio da CPT o questionamento do modelo neoliberal, o protesto contra o desemprego e contra a demora na realização da reforma agrária. Segundo o bispo, o governo FHC interrompeu a negociação sobre a reforma agrária com a Igreja. Parece que o governo tem todas as respostas e se fechou em si mesmo, disse.
O presidente Fernando Henrique Cardoso reúne-se amanhã com ministros na Câmara Setorial de Política Social para discutir um plano do governo que permita aos trabalhadores sem-terra romper a relação de dependência com o Estado. A idéia é construir escolas e postos de saúde, além de estradas para escoamento das produções dos assentamentos. Para desenvolver esses projetos, o presidente decidiu tirar dinheiro dos orçamentos dos ministérios, principalmente da Saúde, da Educação, dos Transportes, do Planejamento e do Trabalho, para aplicar no programa de reforma agrária.
Até aqui, o programa só contava com os R$ 2,6 bilhões do Ministério Extraordinário de Política Fundiária para este ano. O ministro de Política Fundiária, Raul Jungmann, recebeu ordem do presidente para preparar um levantamento das parcelas que cada ministério, incluído a partir de agora no programa de reforma agrária, teria de contribuir.
Com a ação integrada de todos os ministérios, a reforma agrária, que já era um dos principais programas do governo FHC, passará a ser prioridade. A decisão do presidente em incrementar o programa ocorre logo após sua recente viagem à Europa, onde a reforma agrária foi duramente criticada por intelectuais, e até mesmo pelo Papa João Paulo II.


