Curitiba - Dois dos sete acusados de terem matado o menino Evandro Ramos Caetano em suposto ritual de magia negra, em Guaratuba, no Litoral paranaense, estão sendo julgados desde ontem no Tribunal do Júri de Curitiba. Airton Bardelli dos Santos e Francisco Sérgio Cristofolini foram indiciados por homicídio qualificado e ocultação de cadáver e cumpriram quatro anos de prisão em regime fechado e outros três anos em prisão domiciliar. Eles estão soltos desde dezembro de 1999 e negam participação no crime. O julgamento deverá durar oito dias.
Ontem, os réus foram interrogados e foi iniciada a leitura das peças do processo. São aproximadamente 800 páginas. As testemunhas foram liberadas e deverão ser chamadas novamente no sábado ou domingo, quando começarão a falar o que sabem sobre a morte do garoto.
Bardelli foi o primeiro a depor ontem. Com tom firme e sem ter se emocionado em qualquer momento do depoimento, ele contou que trabalhou durante 13 anos como gerente administrativo da serraria da família Abagge e que jamais ouviu falar sobre sacrifício de crianças. ''Se em algum momento eu soubesse de algo neste sentido, teria denunciado'', argumentou.
O Ministério Público (MP) estadual acusa o grupo de ter sequestrado o menino Evandro, na época com 6 anos, e de tê-lo mantido em cativeiro, vigiado por Bardelli, até a hora da cerimônia em que o corpo teria sido mutilado. Bardelli ainda teria sido o responsável pela ocultação do cadáver em um matagal. Apesar de dizer que foi torturado, o réu não teria confessado participação no crime. ''Jamais confessei porque nunca participei de nada. Não iria confessar'', ponderou ele, que argumenta que no dia do crime esteve nas cidades de Paranaguá e Garuva (SC) e tem como provar porque tem testemunhas.
O nome de Bardelli apareceu no depoimento dos pais-de-santo Osvaldo Marcineiro e Vicente de Paula Ferreira, que foram condenados a penas que variam entre 18 e 20 anos de prisão. ''Não sei porque eles me citaram nisso tudo. Eu só posso crer que eles foram fracos e não suportaram as torturas. Aí relataram o que a polícia queria que eles relatassem'', disse o comerciante, que hoje mantém em Guaratuba uma loja de materiais de construção.
Bardelli confessou que recebeu ordens para construir uma capela na serraria por Celina e Beatriz Abagge acusadas de terem encomendado a sacrifício. As duas foram absolvidas, mas devem voltar a julgamento. ''Elas me pediram para construir uma capelinha com medidas apropriadas para proteger a serraria. Eu passei a ordem para o meu encarregado. Elas queriam pôr santos no altar para proteção da serraria'', disse ele.
Bardelli contou que, 15 dias depois do desaparecimento de Evandro, os acusados teriam ido até a serraria fazer uma cerimônia de descarrego. Antes de ser preso, ele teria sido avisado que os policiais o procuravam. Mas não quis fugir. ''Eu não devia nada e não devo. Prenderam a mim sem me mostrarem qualquer mandado de prisão. Jamais vi ao menos um sacrifício de galinha. Não tinha motivos para ser preso'', disse ele.
Durante o depoimento, os representantes do MP mostraram um mandado de prisão temporária que teria sido assinado por Bardelli. Entretanto, Bardelli negou que a assinatura fosse dele.

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