Combatentes femininas usadas como armas fatais na guerra tamil no Sri Lanka
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quinta-feira, 13 de janeiro de 2000
Por Dilip Ganguly 
Colombo (AE-AP) - Escondendo-se sob palha de arroz e folhas secas em sua varanda, Rankothabendi Peter, de 70 anos, assistiu em aterrorizado silêncio, no meio da noite, à descida de uma multidão de mulheres que carregavam facões para a vila onde morava.
Nos 90 minutos que antecedem a aurora, 100 guerrilheiros tâmeis, em sua maioria mulheres, cortaram, retalharam e mataram a tiros 48 habitantes singaleses da vila enquanto eles dormiam ou tentavam fugir pelos campos de arroz que circundam o local. Entre os mortos estavam os corpos desmembrados de 11 crianças.
Peter sobreviveu ao assassinato em Borapola, a 200 quilômetros da capital do Sri Lanka, Colombo, apenas porque os saqueadores não encontraram seu esconderijo.
O ataque do dia 18 de setembro foi realizado pelos Exército de Libertação dos Tigres do Tamil Eelam, um grupo rebelde conhecido pelo grande número de mulheres violentamente comprometidas com o bando, muitas das quais recrutadas quando crianças, e que lutam lado a lado com os homens.
Os rebeldes do tamil vêm lutando pela separação de sua terra natal na ilha da costa sudoeste da Índia desde 1983. Eles acusam a maioria singalesa de espalhar a discriminação em setores como educação e trabalho. Os singaleses, que controlam o governo e o exército, compreendem 76% da população de 18,6 milhões do país.
O Ministério da Defesa do Sri Lanka diz que uma mulher, pertencente ao esquadrão suicida de elite conhecido como os Tigres Negros, explodiu a si mesma na última semana, matando outras 12 pessoas do lado de fora do escritório do primeiro-ministro Sirimavo Bandaranaike. Quando os guardas se aproximaram, considerando suspeito o fato de a mulher ter identidade singalesa mas não ser capaz de falar a língua, ela detonou os explosivos amarrados sob suas roupas.
No dia 18 de dezembro, outra mulher cometeu ato semelhante durante um comício pela eleição da presidente Chandrika Kumaratunga. A explosão matou 23 pessoas e feriu a presidente, que pode perder a visão do olho direito em consequência do acidente.
O líder do Tigre Tamil, Velupillai Prabhakaran, que fundou o grupo rebelde de 1976 quando largou os estudos secundários, descreveu as bombardeadoras suicidas, no aniversário dos Tigres Negros em julho, como "a armadura auto-protetora de nossa raça".
De um bando esfarrapado de lutadores que atacou um grupo de soldados em 1983, o Exército de Libertação dos Tigres do Tamil Eelam tornou-se uma força sofisticada, proscrita no Sri Lanka, na Índia e nos Estados Unidos. Eles têm web sites e usam telefones via satélite para transmitir relatórios diários dos campos de batalha para escritórios em Londres e Paris, onde pessoas que os apóiam levantam fundos e fazem relações públicas.
O exército do Sri Lanka acredita que cerca de metade da força dos Tigres, estimada em 5.000 pessoas, é composta por mulheres. Estes "pássaros da liberdade", como seus companheiros rebeldes as chamam, vêm realizando os principais ataques: o assassinato do primeiro-ministro indiano Rajiv Gandhi em 1991 e os dois recentes ataques a bomba na capital Colombo.
As mulheres do Sri Lanka trabalham fora de casa mais do que as de outros países do sul da ásia, mas a maioria das mulheres tamil mantém a aparência tradicional: saris ricamente coloridos, jóias brilhantes, flores nos abundantes cabelos, tornozeleiras de prata e pontos vermelhos em suas testas.
As mulheres rebeldes, porém, "são fatigadas pelos combates, usam botas, nenhuma maquiagem, jóias ou ostentação. Geralmente têm seus cabelos cortados curtos, no estilo masculino, e usam uma cápsula de cianeto ao redor do pescoço", conta Radhika Coomaraswamy, uma acadêmica tamil que estuda a violência contra as mulheres para a Organização das Nações Unidas (ONU).
Esta imagem "propõe que a androginia é ideal", diz ela. "Mulheres e homens aspiram às mesmas coisas com identidade e estilo idênticos."
Crianças, meninos e meninas, são escolhidos a partir dos 10 anos para tornarem-se bombardeadores suicidas. Algumas famílias, permitem de bom grado que seus filhos juntem-se à causa rebelde, talvez não percebendo as intenções do bando.
Mas poucos dos jovens rebeldes capturados durante as batalhas contam que foram arrebatados de seus caminhos para casa, para a escola ou quando saíam de casa por outro motivo.
Todos recebem treinamento de combate e as meninas ouvem histórias de glória dos épicos hindus sobre mulheres que lutaram contra os inimigos do povo tamil.
"Eles primeiro usam as meninas como espiãs e dizem a elas, constantemente, que estão fazendo um grande serviço pela causa de sua terra natal", diz Sarath Munasinghe, um general aposentado que até três semanas atrás era o comandante militar da cidade tamil de Jaffna, onde interrogou diversos rebeldes capturados.
"A atenção que elas recebem fazem com que se sintam muito bem e a doutrinação começa", explica ele, acrescentando que as lutadoras são geralmente mantidas numa área confinada e que não travam contato com pessoas de fora. "Elas vêem filmes em vídeo e são constantemente alimentadas com histórias sobre como os tâmeis são oprimidos e mortos."
Os rebeldes escolhem propositadamente as mulheres para serem as bombardeadoras suicidas, diz Munasinghe, porque elas não podem ser submetidas a revistas como os homens nos postos de controle. Outro fator, pode ser as expectativas culturais em relação às mulheres.
"Em nossa sociedade as mulheres se sacrificam muito. Você não pode perceber isso porque a maioria sofre em silêncio", diz Maheswary Velautham, um advogado tamil que atende casos de direitos humanos.
"Numa casa normal, o sacrifício pode parecer simples, como ser a última a comer, de forma que os demais não fiquem com fome. É este elemento de sacrifício que se manifesta um milhão de vezes mais forte quando é pedido a uma militante que morra pela causa da terra natal tamil."


