Combate à violência divide prefeitos do Rio
PUBLICAÇÃO
domingo, 26 de setembro de 1999
Por Murilo Fiuza de Melo 
Rio, 27, (AE) - Prefeitos do interior do Rio e o da capital, Luiz Paulo Conde (PFL), protagonizaram, hoje de manhã, uma acirrada discussão sobre o combate da violência e a viabilidade de convocar o Exército para melhorar a segurança no Estado. A discussão aconteceu em pleno auditório da Federação das Indústrias do Estado do Rio de Janeiro (Firjan), durante reunião da Associação de Prefeitos dos Municípios do Estado do Rio de Janeiro (Apremerj).
Convocado para discutir a reforma tributária, investimentos para o Estado e segurança, o encontro serviu para expor as divergências entre adversários e aliados do governador Anthony Garotinho, que não compareceu e enviou em seu lugar o secretário estadual de Agricultura, Rogério Magalhães. O secretário de Segurança Públçica, coronel Josias Quintal, embora convidado também não apareceu. A ausência do governador irritou o presidente da Apremerj, José Camilo Zito dos Santos (PSDB), prefeito de Duque de Caxias.
Santos disse que não iria discutir segurança, um "assunto tão complexo", sem a presença do governador. "Esse tipo de assunto não deve ser tratado com representantes", afirmou Zito, que disse ter convidado Garotinho por ofício na quinta-feira passada. "Mais uma vez, deselegantemente, ele (Garotinho) não veio ao nosso encontro". Zito puxou o coro dos defensores da intervenção militar no Estado. Segundo o prefeito de Caxias, a Polícia Militar do Rio tem 10 mil homens a menos que o necessário e a convocação do Exército poderia diminuir, imediatamente, esse déficit no setor.
"As Forças Armadas poderiam exercer o papel da Segurança Pública até o recrutamento desses novos policiais", propôs. "Inclusive, com a ajuda da Marinha no policiamento da Baía de Guanabara". O prefeito do Rio, Luiz Paulo Conde, negou que tenha defendido publicamente, na semana passada, a presença do Exército nas ruas, mas afirmou que não vê problema nenhum nisso. "O Exército não participou da segurança dos chefes de Estado durante a Cimeira? Então, por que não usá-lo no policiamento ostensivo? Qual é o problema?", indagou. Política - Conde afirmou, porém, que o governador, que foi energicamente contrário à sugestão do prefeito carioca, tem levado a questão para o aspecto "meramente político". "Não fui eu quem se elegeu com a bandeira da segurança, não escrevi um livro sobre o assunto", disse Conde, referindo-se a "Violência e Criminalidade no Estado do Rio de Janeiro", escrito por Garotinho e pelo antropólogo Luiz Eduardo Soares. O livro foi amplamente divulgado pelo governador durante a campanha eleitoral como seu manual de metas para a área de segurança.
"Nunca coloquei a segurança como uma questão eleitoral, mas como algo que me preocupa como cidadão", criticou. Segundo o prefeito do Rio, sua idéia é de "unir esforços" entre as três esferas de poder - município, Estado e União - para discutir propostas conjuntas para combater a violência. Para isso, disse, o governo estadual deve ser "menos intransigente". "Nós (a prefeitura) fazemos uma série de coisas: construímos cabines para a PM, investimos na guarda municipal, o Rio emprestou dinheiro - no governo Marcello Alencar - para comprar equipamentos para a polícia, então, não será essa intransigência que deveremos alimentar", disse.
Apenas os prefeitos de São Gonçalo, Édson Ezequiel, e Campos, Arnaldo Viana, ambos do PDT, mesmo partido de Garotinho, saíram em defesa do governador. "As Forças Armadas podem até prestar um auxílio no combate da violência no Rio, ajudando na vigilância das fronteiras, mas não no papel de Polícia Militar, como foi proposto aqui", reclamou Viana, que chegou a ameaçar deixar o plenário. "Querer colocar as Forças Armadas para subir e descer o morro, causa até um constrangimento para o próprio Exército". Violência - O prefeito de Nova Iguaçu, Nelson Bornier (PSDB), afirmou que nos municípios da área 20 do Estado - composta por Nova Iguaçu, Belford Roxo, Nilópolis e São João de Meriti (Baixada Fluminense) - quase todos os índices de violência cresceram no mês de agosto em relação ao mesmo período de 1998. O número de homicídio subiu de 433 casos para 551; o de sequestros, de zero para 12; o de roubos e furtos de veículos pulou de 3.607 para 4.146 registros; o de assalto em ônibus, de 521 para 626; e o de roubo em banco, de 25 para 26. Somente o número de estupros caiu: de 171 para 106 casos.


