Erivan, 28 (AE-AP) - O comando armado que invadiu o Parlamento da Armênia na quarta-feira, em Erivan, matando o primeiro-ministro Wasgen Sarksyan e sete outros altos funcionários e políticos, rendeu-se hoje (28) por volta das 10 horas (horário local), após o presidente Robert Kocharyan ter-lhes prometido garantir sua integridade física e um julgamento justo. Como parte do acordo, antes da prisão um depoimento gravado do líder do grupo, o nacionalista radical e ex-jornalista Nairi Unanyan, foi transmitido em cadeia nacional de televisão.
O Ministério da Defesa emitiu hoje um comunicado pedindo a destituição do procurador-geral e dos ministros do Interior e da Segurança, por terem fracassado na garantia da segurança dos membros do governo e não terem evitado o massacre. Sarksyan era quem de fato detinha o poder na Armênia. Tinha sido ministro da Defesa até o começo do ano e era admirado no meio militar por ter reerguido o Exército após a guerra contra o Azerbaijão (1988-1994).
Na declaração à TV, Unanyan afirmou que o objetivo do grupo era "salvar o país do colapso político e econômico" e sua intenção era apenas "assustar" os parlamentares e membros do gabinete do governo, mas "teve de abrir fogo" para responder aos tiros dos guardas do Parlamento. A versão sobre o tiroteio não foi confirmada. Entretanto, no dia do assalto, o próprio Unanyan dissera enfaticamente a uma emissora de TV que sua meta era matar o primeiro-ministro.
Às 10h30, o comando libertou os 41 reféns - entre os quais havia ministros, deputados e funcionários do Parlamento - e meia hora depois seus cinco integrantes depuseram as armas e foram transportados num ônibus para o Ministério da Segurança, escoltado por veículos blindados. O edifício do Legislativo estava fortemente cercado por tropas que tentavam evitar a aproximação de populares.
Os cinco homens irromperam no Parlamento gritando que se tratava de um golpe de Estado, no momento em que o primeiro-ministro e vários membros do gabinete de governo participavam de uma sessão de perguntas e respostas. Quando Sarksyan fazia um discurso, Unanyan aproximou-se e disse: "Chega de beber nosso sangue." O primeiro-ministro respondeu: "Tudo está sendo feito por vocês e o futuro de seus filhos." Foi então que Unanyan abriu fogo - segundo um repórter presente no local, descarregou toda a munição de sua arma no primeiro-ministro.
Foram mortos ainda o presidente do Parlamento, o carismático Karen Demirchyan - aliado de Sarksyan e destacado líder do país nos tempos do domínio soviético -, os dois vice-presidentes da Casa, o ministro de Assuntos Operativos e três parlamentares. Sete deputados e funcionários do Parlamento estão feridos, um deles gravemente.
O primeiro-ministro e o presidente do Parlamento pertenciam à coalizão eleitoral Unidade, vencedora das eleições legislativas de 30 de maio. Após essa vitória, o presidente do país convidou Sarksyan para formar o governo. Os dois vinham mantendo relações difíceis ultimamente, em especial pelo fato de Sarksyan opor-se a quaisquer concessões ao Azerbaijão nas negociações sobre a região azerbaijana de Nagorno-Karabach, habitada majoritariamente por armênios. O território era armênio, mas os soviéticos o entregaram ao Azerbaijão nos anos 20. Os dois países estariam próximos de um acordo.
Analistas políticos tacharam a ação do grupo de ato de protesto político de pessoas insanas, sem vínculo com Nagorno-Karabakh, embora o território seja o principal motivo de especulações por ter sido a questão principal do país nesta década. A avaliação geral nos meios políticos locais, porém, é que a crise provocada pela morte de Sarksyan certamente levará ao esfriamento das negociações com o Azerbaijão.
"A morte de Sarksyan, combinada com a de Demirchyan e outros
até certo ponto deixa o sistema político sem líderes", comentou a jornalista Karina Khodikyan, de uma revista mensal armênia de assuntos políticos e sociais.
Ex-república soviética, o país tornou-se independente em 1991 e desde então sua economia permanece caótica, marcada pela destroçada estrutura estatal e tentativas malsucedidas de construir um sistema pró-Ocidente. A corrupção é generalizada e muitos funcionários governamentais são acusados de desviar dinheiro público.
O presidente da Armênia decretou três dias de luto oficial no país.

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