Comandante geral da PM reúne-se com famílias de jovens desaparecidos
PUBLICAÇÃO
quinta-feira, 25 de fevereiro de 1999
Por José Rodrigues 
Santos, SP, 26 (AE) - Os sete policiais militares presos como suspeitos de serem responsáveis pelo espancamento e sumiço de três jovens, na Quarta-Feira de Cinzas, em São Vicente, no litoral paulista, continuam negando qualquer participação no episódio. Os resultados dos exames técnicos e das sindicâncias abertas para esclarecer a ocorrência ainda não são conhecidos. Hoje, o coronel Rui Cesar Mello, comandante-geral da Polícia Militar, esteve em Santos, onde reuniu-se com familiares das vítimas. "Estou aqui em respeito aos familiares do garoto e queremos a apuração completa para a punição dos responsáveis", disse. E fez um apelo: "Quem tiver alguma informação real sobre o paradeiro dos jovens, avise a polícia".
O comandante esclareceu que os sete policiais presos estão negando qualquer participação nos atos denunciados o que "dificulta os trabalhos". Desse total, quatro foram reconhecidos por testemunhas e outros três deveriam estar na Blazer do Regimento de Cavalaria, naquela madrugada. Uma sindicância foi aberta para apurar irregularidades administrativas. O coronel Rui Cesar Mello acredita que as conclusões da sindicância podem ajudar no esclarecimento do caso.
Ele citou a ausência do Relatório de Serviço Motorizado, que não existe, e a falta de menção da ocorrência em São Vicente no relatório de serviço. Não foram também registrados os horários de saída e entrada do veículo. "Estamos trabalhando em cima dessas imprecisões para reunir provas que permitam esclarecer o caso", informou. Mancha - Mello revelou que a mancha encontrada no veículo usado pelos PMs é mesmo sangue humano e que, dentro de aproximadamente dez dias, estarão concluídos os exames de DNA para ver ser há ligação com alguma das vítimas, cujos familiares já fizeram a coleta para a comparação. Ele aguarda também o laudo da perícia técnica realizada na Blazer da polícia. O veículo apresenta a traseira amassada. Segundo testemunhas, o amassado teria sido causado por um murro, que não atingiu um dos três jovens.
Cerca de 60 policiais militares estão trabalhando para esclarecer os fatos e a maior reclamação é o excessivo número de informações falsas. "Não estamos descartando nenhum dado, mas esse tipo de informação falsa prejudica as investigações", disse o coronel, que espera a colaboração de quem tenha pistas concretas sobre o caso. Ele pediu ajuda também à Divisão de Homicídios e Proteção às Pessoas (DHPP), além da Polícia Civil, que já está atuando no caso. Sem pistas - Depois de 11 dias do desaparecimento de Anderson Pereira dos Santos, de 14 anos, Thiago Passos Ferreira, de 17, e Paulo Roberto da Silva, de 21, a polícia não trabalha com certezas. Há a denúncia de que os rapazes foram agredidos pelos policiais em plena rua e colocados na Blazer, que teve seu prefixo anotado. Os 40 policiais do Regimento de Cavalaria da capital, deslocados para a Baixada Santista para dar segurança aos turistas na temporada passaram pelo reconhecimento das testemunhas.
As testemunhas identificaram Marcelo de Oliveira Cristov, Alexandre de Lara Costa, José Carlos Ferreira e Antônio Sérgio Quinta da Costa, que estão em regime de prisão temporária por 30 dias. Outros três policiais que deveriam estar no veículo policial também estão presos. Eles negam a participação nos episódios, que alegam nem conhecer.
Também não houve, durante esse período, qualquer informação concreta que levasse a encontrar os três jovens, supostamente executados pelos policiais que os prenderam. Diante disso, a corregedoria está procurando algumas contradições e os procedimentos de rotina, que podem dar pistas importantes. Um exemplo: há informações de que o veículo foi recolhido entre 5 e 5h30 da Quarta-Feira de Cinzas, enquanto a agressão aos rapazes ocorreu entre 6 e 6h30. Há dúvidas se a Blazer saiu novamente após esse horário. Travesti - A Polícia Civil investiga outras pistas, como a participação de um homossexual no caso. Uma das versões é de que ele teria se desentendido com Paulo Roberto da Silva, que teria ficado com seu relógio. Silva foi avistado pela ronda do Regimento de Cavalaria e apontado pelo homossexual, quando já estava em companhia de Anderson e Thiago. Os policiais desceram do veículo, encontraram o relógio e passaram a agredir os três.
Relato de testemunhas, confirmado pelas manchas de sangue que ficaram na calçada, revela que os PMs deram murros e bateram várias vezes a cabeça de Paulo Roberto da Silva no chão. Depois, os três teriam sido colocados no veículo e não se teve mais notícias deles. O comandante-geral da PM, coronel Rui Cesar Mello, disse que nenhuma das testemunhas confirmou a participação do homossexual na operação. Esperança - Depois do encontro com os familiares dos desaparecidos, Valdir da Silva, pai de Paulo Roberto, comentou que "o encontro foi bom, sentimos firmeza nas investigações, mas queremos uma solução rápida para esse nosso martírio". Ele havia ficado 40 dias sem fumar, mas desde Quarta-Feira de Cinzas está "vivendo de café e cigarro", como ele diz, já que nem comer está conseguindo.
Vanda Pereira dos Santos, mãe de Anderson, deixou o quartel do 6º Batalhão da PM chorando: "minha esperança é que o caso tenha uma solução rápida e eles sejam encontrados".


