Curitiba- O comandante do 20º Batalhão de Infantaria Blindado (BIB) em Curitiba, tenente-coronel de infantaria Ernani Lunardi Filho, foi afastado ontem de suas funções por causa da denúncia de 'trote' no batalhão. O Comando da 5 Região Militar, ao qual o 20º BIB está subordinado, vai conduzir um Inquérito Policial Militar (IPM) para apurar a denúncia, veiculada no domingo pelo programa ''Fantástico'', da TV Globo. As imagens mostraram novatos da 2 Companhia de Fuzileiros do Batalhão sofrendo um trote violento, com afogamento com balde d'água, chineladas e choques elétricos, além de ameaças de queimaduras com um ferro de passar roupas. Outros foram temporariamente afogados em baldes.
Doze sargentos temporários da 2 Companhia de Fuzileiros, conhecida como ''Pantera'', estão sendo investigados pela suposta prática de tortura e maus tratos dentro da unidade, que fica no 20º BIB. Eles foram afastados dos serviços externos.
A filmagem, realizada no dia 25 de outubro, revelou que o chamado ''trote'' começou no banheiro após a leitura de um texto anunciando a punição. Em seguida, os novatos (que acabaram de se formar e eram chamados de lobinhos pelos sargentos mais antigos) foram imobilizados. Durante as seções de tortura, os sargentos eram obrigados a gritar pedindo socorro. Um dos torturados engasgou e chegou a passar mal. Ele foi colocado embaixo do chuveiro com uma cueca na cabeça. Outro chegou a entrar em pânico com as ameaças que eram feitas e foi obrigado a dizer que amava os ''antigões'', recitando o juramento da companhia.
O vídeo da tortura no trote foi examinado por peritos em tecnologia. Segundo informou pela manhã o então comandante do BIB, tenente-coronel Ernani Lunardi Filho, uma sindicância interna foi instaurada no dia 10 de novembro quando o comando em Brasília anunciou a existência das imagens de vídeo que seriam divulgadas no Fantástico. Todos os sargentos envolvidos na fita de vídeo foram imediatamente identificados. Ontem, a sindicância foi transformada em Inquérito Policial Militar (IPM) para apurar os indícios de crime. O IPM está sendo presidido pelo tenente-coronel Ilton Barbosa, comandante da 5 Brigada da Cavalaria Blindada.
Ernani abriu ontem as portas do 20º BIB para a imprensa e disse, sem saber que estava afastado, que as investigações seriam transparentes. Em depoimentos feitos durante as sindicâncias, os sargentos alegaram que o ''trote'' era uma brincadeira comum entre eles. Todos participariam de forma indiscriminada: novatos e veteranos. Os 12 sargentos envolvidos nas gravações se formaram em agosto depois de fazerem curso por seis meses. A turma era composta por 16 alunos, mas quatro não concluíram. Ernani contou que não tinha conhecimento deste tipo de prática entre os sargentos temporários (ficam sete anos dentro da corporação e vão depois para a reserva).
''O curso foi muito bem conduzido e isso não ocorreu durante o curso. Foi fora do expediente e não fez parte das atividades de instrução dos sargentos. Foi uma seção de trote inaceitável, revoltante e que condenamos há muito tempo. Amanhã, meu filho poderá estar servindo aqui. Não admitiria que ele passasse por isso'', afirmou. Ernani considerou a prática como sendo criminosa. O IPM tem 20 dias para ser terminado, mas pode ser prorrogado por até 40 dias. Os sargentos envolvidos estão sendo obrigados a permanecer no expediente integral dentro da unidade à diposição do inquérito.
Ernani disse ter ciência que era o comandante da unidade e que deveria saber sobre os fatos extremos ocorridos ali dentro. Entretanto, desde janeiro (quando foi removido de Brasília para Curitiba) nunca teria ouvido falar das imagens, fotografias também foram divulgadas. Ao todo, são 1,1 mil militares dentro da unidade, divididos em cinco companhias. São 200 sargentos no BIB. ''Não fui conivente. Não sabia destes fatos'', defendeu-se.
Diariamente, várias sindicâncias internas são abertas para apurar fatos considerados suspeitos. Atualmente, 300 sindicâncias estão em andamento. ''Vamos esperar a conclusão do inquérito. Mas pode ter certeza que se eles tiverem que ser excluídos, serão excluídos. Se tiverem que ser punidos, serão punidos. Na Justiça Militar ou na Justiça Comum. Os fatos surpreenderam o Brasil e não é nem nunca foi prática comum dentro do Exército''.

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