Brasília, 17 (AE) - O major Fernando do Carmo Fernandes fica com os olhos lacrimejando ao falar da viagem ao Timor Leste e lembrar que a esposa, Dulce, e a filha, Fernanda, de 13 anos, ficarão no Brasil. Único espírita do grupo, o major é o comandante da tropa de 51 militares da Polícia do Exército que deve viajar para a Austrália na próxima segunda-feira, às 10h, para compor a força da ONU, com a missão de impor a paz no Timor Leste, ex-colônia portuguesa que foi invadida pela Indonésia em 1975.
Paulista da capital, o major Fernandes só viu combate de verdade no filme "Apocalipse Now", de Francis Ford Coppola. Ele tenta encontrar em sua religião as razões que o levam a jogar uma mochila nas costas e a carregar um fuzil. "Na visão do espiritismo", disse o major, "temos uma missão a cumprir".
Todos os militares que viajam ao Timor são voluntários, têm conhecimento de inglês e currículo com boas notas nas missões que tiveram dentro do Exército. Outro perfil quase comum a todos é a vontade de progredir na carreira. Diferentemente das missões de paz, esta é uma missão para impor a paz, custe o que custar.
"Quero progredir na carreira com esta viagem", disse o cabo Fernando Cabral, de 21 anos, que só viu cenas de guerra no filme "O Resgate do Soldado Ryan" e nunca brincou em videogames de guerra. "Acho que vou ver cenas semelhantes às do filme em Timor", acredita o soldado, que ainda não tinha lido as notícias sobre o início da retirada das milícias armadas pró-Indonésia. Ex-auxiliar de supermercado em Londrina (PR) e filho de uma diarista, o soldado não esconde que quer chegar à função de general.
O cabo Hélio Horta de Moura, mineiro de Governador Valadares, vai deixar a mulher e três filhos menores em Samambaia, uma das cidades da periferia do Distrito Federal. Há 12 anos no Exército
o cabo diz que está preparado para qualquer tipo de combate, até nas situações que as pessoas só vêem em filmes de guerra. "Não seria difícil para mim enfrentar cenas iguais à do Platoon", disse.
Enfrentando ou não cenas de filme na vida real, os soldados brasileiros receberão todos os dias as principais cenas de novelas brasileiras, resumo dos jornais de maior circulação e ainda poderão conversar com a família pela Internet. Será montada uma sala especial em Brasília para troca de informações.
A viagem dos 51 militares brasileiros vai custar aos cofres públicos R$ 3,5 milhões, somente nos primeiros quatro meses. O Exército considera a missão a mais perigosa depois da Segunda Guerra Mundial.
"Há possibilidade de haver combate real e toda a tropa já esta sabendo disso", disse o chefe do Comando Militar do Planalto, general de divisão Carlos Alberto Uchôa. "Se houver resistência das milícias", disse um militar de alta patente, "os soldados terão de mandar chumbo".
Cada soldado vai carregar uma mochila de 35 quilos e vários tipos de materiais, que incluem quatro granadas para cada militar, fuzil, óculos para visão noturna, capacete de 3,5 quilos, cassetete elétrico, colete a prova de balas e máscara contra gases, entre outros. Cada soldado também carrega um kit médico, que inclui soro antiofídico e até bisturi, para eventuais cirurgias de emergência. Os soldados carregam comida enlatada, com pratos que vão da feijoada ao ravioli.
Os militares que irão ao Timor ganham em média R$ 750 mensais e terão adicional de um terço durante a missão. Terão ainda prioridade nas futuras listas de promoções do Exército. Quase todos os 1.250 homens da Polícia do Exército queriam ir ao Timor. Em Brasília eles trabalham principalmente em funções que incluem proteção de instalações, escolta de autoridades, controle de trânsito e prisão de soldados que não retornam aos quartéis.
Erik Giovanni Costa Carvalho, de 21 anos, o soldado mais novo da tropa, disse ter consciência que vai ver de perto o que só viu em campos de treinamento. Ele afirmou que nem sabia onde era Timor Leste ao ser um dos escolhidos para a missão. Ele não esconde a ansiedade e a grande expectativa de ver um conflito de perto, do outro lado do mundo.
Mineiro de Pirapora, Erik disse que avisou a família por telefone.
A tropa, que tem 18 militares casados, tem um que adiou o casamento, previsto para o início de dezembro próximo. "Minha noiva chorou um pouquinho", disse o sargento João Carlos Fontinelli, "mas se conformou com a viagem". Nascido em Campinas, Fontinelli, aos 24 anos, acredita que valeu a pena adiar os planos de constituir uma família para viajar rumo ao desconhecido.

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