''Desculpa, Simone, fiz bobagem''. A frase dita pelo ex-piloto de fórmula truck Ernesto Pívaro Neto à esposa poderia soar banal, não fosse por um detalhe - quando disse isso, tinha acabado de sofrer um sério acidente e já estava praticamente inconsciente, entrando em estado de coma, no qual ficaria por 17 dias.
Ele não se lembra de ter dito a frase, mas ela relembra emocionada: ''Ninguém viu a cena, ele pegou no meu braço e falou. A enfermeira disse que era impossível ele ter falado qualquer coisa, por causa do estado dele. Mas foi o que me deu a certeza que ele iria voltar''.
Histórias de quem passa pelo coma costumam vir carregadas de emoção, principalmente pelas lembranças e incertezas de quem teve um familiar nessa situação. Para a ciência, o estado pode ser explicado com uma única idéia - o coma é a perda da consciência, que pode ser reversível ou não. É uma ''pausa'' na consciência.
Carlos Alberto de Almeida Boer, neurologista do Hospital do Coração em Londrina, lembra que estar consciente é estar cônscio do eu, ''em condições de saber de sua situação interna e a relação com o meio ambiente''. Ele explica que não há um local específico no cérebro que ''produz'' a consciência, mas há processos neuroquímicos que dão condições da pessoa estar consciente da sua existência. ''Há algumas regiões mais relacionadas, como o hipotálamo e o tálamo, mas a consciência depende do funcionamento harmônico do cérebro'', explica.
Com 1,4 quilo e uma intensa atividade metabólica que consome 20% do trabalho cardíaco de bombear sangue no organismo, o cérebro necessita para o seu funcionamento principalmente de oxigênio e glicose. E uma interrupção nesse delicado equilíbrio, explica o neurologista, já pode levar ao estado de inconsciência.
Bastam 10 segundos sem oxigênio no cérebro para a pessoa perder a consciência. No caso de uma parada cardiorrespiratória, por exemplo, é possível recuperar um paciente com até cinco minutos sem oxigênio. Com até oito minutos é possível reverter o quadro, mas há sequelas para o paciente. Se a falta de oxigênio se prolongar por um tempo acima disso não há reversão. Da glicose há uma pequena reserva de 90 minutos.
O cérebro além de regular a pressão arterial no corpo mantém determinada pressão no próprio cérebro - a chamada auto-regulação cerebral, menor que a pressão no resto do corpo. Um trauma, uma hemorragia, alterações metabólicas ou um tumor em fase avançada podem fazer essa auto-regulação deixar de funcionar. E com uma pressão maior, não há irrigação normal no cérebro. Esse pode ser o início do coma, a perda da consciência.
Há, segundo o médico, várias graduações de coma, de acordo com o nível de comprometimento. O pré-coma é o mesmo que torpor, quando a pessoa responde a um estímulo, mas volta à condição de sono profundo.
Quando a pessoa está em coma, o corpo continua funcionando, o cérebro funciona, o coração bate, mas não há consciência. Em alguns casos, a respiração é precária, e aí é necessário intervir com entubação para que a pessoa continue respirando. A pessoa também está mais sujeita a complicações, como infecções pulmonares e urinárias.
Depois de um período de coma, o corpo reativa funções ativas básicas, explica o médico, como o sono e a vigília, e abre o olho, como se acordasse, boceja, e dorme, voltando a fechar os olhos. Este é o estado vegetativo.
Não há uma explicação definitiva de porquê o paciente desperta do coma, mas segundo o neurologista, isso só ocorre quando a causa que o levou ao coma não causou uma perda suficiente de neurônios que prejudicasse o despertar. Os estímulos, ressalta, são apenas testes para determinar se a pessoa está ou não desperta.

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