"Com o desespero e inalando a fumaça, apaguei"
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domingo, 27 de outubro de 2013
Rubens Chueire Jr.<br> Reportagem Local 
Curitiba - Na fatídica madrugada do dia 27 de janeiro, Jéssica e Bruno, acompanhados de um primo do namorado, foram até um barzinho de Santa Maria e ficaram na fila por cerca de uma hora. Desistiram e acabaram na boate Kiss. "Coincidentemente tinha um estacionamento na frente da boate. Parecia que estava tudo muito certo e não tinha fila, então por que não entrar?", lembra a jovem.
Por volta das 2h da madrugada, com o local lotado, eles foram ao banheiro e na saída verificaram uma pequena correria, que acharam normal porque, segundo a jovem, a boate tinha fama de sempre ter brigas. Nesse momento Bruno pediu que ela segurasse forte sua mão.
O tumulto foi aumentando. "As luzes começaram a se apagar e a fumaça começou a chegar mais perto até tomar conta do local. Tentei proteger meu nariz e trancar a respiração agarrada na mão dele", relata Jéssica.
Empurrada pela multidão, ela tropeçou e largou da mão do namorado. "Com o desespero e inalando a fumaça, apaguei. Só me lembro de ter aberto os olhos e já estar fora da boate, mas foi como um flash. Quando voltei a mim já estava no hospital", conta.
Ela percebeu médicos e enfermeiros correndo pelos corredores mas ainda não tinha noção da tragédia. Arrancou o soro e a máscara de oxigênio e saiu à procura do namorado, até descobrir que Bruno não estava no hospital e que também não constava da lista de mortos. "Nesse momento fiquei chocada porque não sabia da gravidade do incidente", relata.
Com a visão debilitada em decorrência da fumaça, Jéssica conta que via vultos e também o que parecia gente empilhada nos corredores. "Na verdade eram pilhas de gente morta. Separavam aqueles que tinham alguma chance de serem salvos dos corpos. Ninguém estava preparado para isso."
Contato
Ela conseguiu um celular emprestado e ligou para a sogra. "A última coisa que veio na minha cabeça foi ligar para meus pais porque achei que não era nada. Estava consciente mesmo sentindo dor. Só fui entrar em contato com meu pai quando duas meninas passaram por mim e choraram, daí bateu o desespero e percebi que a situação era ruim."
No corredor, em meio à confusão, Jéssica encontrou um médico conhecido e o chamou. "Na mesma hora ele tirou meus anéis, brincos, piercing e o vestido. Depois não me lembro de mais nada", afirma. O homem mandou entubá-la e salvou sua vida. Jéssica acordou dez dias depois, na Unidade de Terapia Intensiva (UTI) do Hospital Redentor, em Porto Alegre. A transferência de Santa Maria ocorreu ainda no domingo (28 de janeiro) pela manhã.
Jéssica ficou sabendo da morte de Bruno em Porto Alegre. Ela ficou internada 30 dias, sendo 25 na UTI. Recebeu alta e, no início de março, foi para Colombo.
Bruno faleceu no dia 2 de fevereiro, uma semana depois do incêndio. No mesmo dia o casal iria comemorar cinco anos de namoro. Conforme ela conta, o rapaz foi entubado sabendo que ela tinha sido encontrada, pois ele chegou a falar com a mãe. "Depois de um tempo fiquei sabendo que o Bruno tinha saído da boate e voltou pelo menos umas duas vezes para me buscar. Nisso ele inalou muita fumaça e passou mal."


