Com o apoio do PMDB, governo espera fechar no mínimo de R$ 150
PUBLICAÇÃO
segunda-feira, 20 de março de 2000
Por Chistiane Samarco, Carmen Kozak e Rosa Costa 
Brasília, 21 (AE) - O governo avançou hoje na direção de um acordo com a base aliada para fixar o novo salário mínimo próximo dos R$ 150 como deseja a equipe econômica. A expectativa de ministros de Estado e políticos governistas é a de que o número seja anunciado na quinta-feira (23), ou no máximo até segunda-feira (27). Os líderes dos partidos aliados vão discutir o assunto com o presidente Fernando Henrique Cardoso no fim da tarde desta quinta-feira, logo depois do depoimento do ministro da Previdência Social, Waldeck Ornélas, na comissão especial do salário mínimo.
O sinal de que o acordo pode estar próximo foi dado tanto pelo governo quanto pelos aliados. Todos adotaram o tom da conciliação em seus discursos. Ao mesmo tempo em que o presidente Fernando Henrique reuniu a equipe econômica e recomendou "empenho e criatividade" para chegar a uma solução, o presidente do Senado, Antônio Carlos Magalhães (BA), defendeu a transigência como princípio da boa política" e o PMDB admitiu até aprovar os R$ 150, caso seja esse o maior valor possível, sem comprometer o ajuste fiscal.
A expectativa de pôr logo um ponto final no "cabo de guerra" entre governo e Congresso surgiu a partir de uma carta do senador Jáder Barbalho enviada hoje a Fernando Henrique. Irritada com a insistência do PFL em bancar um reajuste em torno dos R$ 180, a cúpula do PMDB reuniu-se durante um almoço na casa do presidente da Câmara, Michel Temer (PMDB-SP), disposta a barrar "o falatório" pefelista.
O objetivo formal da carta foi o de pedir ao presidente que "esgotasse" a questão esclarecendo definitivamente aos aliados qual a cifra limite do governo. Mas a movimentação política foi bem outra. "É xeque-mate no ACM", resumiu um dirigente do PMDB. "O País não pode continuar dividido entre os indiferentes à questão social e os demagogos que fazem a defesa de números sem nenhuma responsabilidade fiscal", resumiu o líder Barbalho, em defesa da tese de que o governo deve impôr limites e avaliar com quem pode realmente contar. "Estou querendo salvar a todos", insistiu o peemedebista.
Provocado a identificar a fonte de financiamento para o mínimo de R$ 180, o senador Antônio Carlos não resiste: "Me dá o governo que eu digo." Mas a mudança de tom fica clara quando ele diz que "todos podem ceder para encontrar um número razoável". Até o deputado Luiz Antônio de Medeiros, o mais ranheta dos pefelistas na comissão do mínimo, queixou-se hoje da falta de um interlocutor no governo e pregou a conversa. "É hora de negociar."
Medeiros e os representantes da comissão do mínimo também pediram uma audiência com o presidente na quarta-feira. "O governo não permitirá que o palanque se arraste até maio", diz o líder do governo no Congresso, deputado Arthur Virgílio Neto (PSDB-AM). Ele explica que o governo não quer desprestigiar a comissão ou o Congresso, mas que abrirá mão do dever de manter a estabilidade econômica.
O governo foi beneficiado pela eterna disputa de poder entre o PFL do senador Antonio Carlos e o PMDB de Barbalho, mas também reage. "O presidente não fará nada autoritariamente", diz o líder do governo no Senado, José Roberto Arruda (PSDB-DF). A equipe econômica está estudando uma solução legal que permita aos estados adotar um valor mais generoso, de comum acordo com o setor privado local, sem prejuízo do mínimo fixado pelo governo federal.
Hoje, o ministro do Trabalho, Francisco Dornelles, depôs na Comissão Especial da Câmara que analisa o projeto do novo mínimo
dando continuidade à estratégia do Palácio do Planalto de apresentar dados que sustentem a defesa de um reajuste menor para preservar o ajuste das contas públicas. "O reflexo do mínimo na redução da pobreza é importante, mas temos que pensar que o valor tem que ser fixado preservando o equilíbrio das contas do governo para não gerar aumento de juros, de desemprego e de inflação", disse o ministro.
Amanhã (22), será a vez do ministro da Fazenda, Pedro Malan, comparecer à Comissão. O depoimento dele, porém, não reserva surpresas. A expectativa maior fica mesmo por conta do comparecimento do ministro da Previdência, Waldeck Ornellas, fiel aliado de Antônio Carlos Magalhães. "Ele terá que ser ministro e leal às orientações ao governo, mas não poderá deixar de ser pefelista", diz um dirigente do PFL.


