Com melhora lenta, Brasil tem 11,3 milhões de analfabetos
Número da Pnad Contínua, do IBGE, equivale a 6,8% das pessoas com 15 anos ou mais
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quinta-feira, 20 de junho de 2019
Número da Pnad Contínua, do IBGE, equivale a 6,8% das pessoas com 15 anos ou mais
Rafael Costa - Grupo Folha 

Curitiba - Em 2018, o Brasil ainda tinha 11,3 milhões de analfabetos absolutos com 15 anos ou mais de idade, segundo dados da Pnad (Pesquisa Nacional por Amostra de Domicílios) Contínua da Educação 2018, divulgada nesta quarta-feira (19) pelo IBGE (Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística). O número equivale a uma taxa de analfabetismo de 6,8% — acima dos 6,5% projetados para 2018 no Plano Nacional de Educação. Segundo os dados da pesquisa anual, a taxa era de 6,9% em 2017. A queda de 0,1 ponto percentual representa 121 mil analfabetos a menos. Se seguir nesse ritmo, o País ficará longe da meta de erradicar o analfabetismo até 2024.
Na avaliação de Ana Lúcia Lima, coordenadora do Inaf (Indicador de Analfabetismo Funcional) e da consultoria Conhecimento Social, a redução abaixo da meta não chega a surpreender, já que a taxa de analfabetismo se estabilizou na década passada depois de cair rapidamente com a ampliação do acesso à escola no Brasil nos anos 1990.
“A população que não teve nenhuma escolaridade foi dando lugar a pessoas com maior escolarização, mas esse movimento se esgotou, pois já faz duas décadas que temos todas as crianças na escola. A redução automática, apenas por substituição de gerações, não vai continuar”, explica. “Por outro lado, a escola continua produzindo analfabetos.”
Segundo Lima, uma redução mais acentuada dependeria de políticas públicas específicas para a alfabetização de adultos — que não têm sido “nem quantitativamente expressivas e nem qualitativamente eficazes”. “Não são esperadas mudanças bruscas”, diz. “Já tivemos políticas mais focadas na alfabetização de adultos, mas esse tema está bastante fora da agenda.”
A coordenadora do Inaf observa que esse histórico se reflete na grande diferença entre as taxas de analfabetismo por faixa etária. No grupo populacional de 60 anos ou mais, a taxa chega a 18,6% — o equivalente a 6 milhões de pessoas. “Somente a partir da década de 1990 o Brasil conseguiu atingir a universalidade, com muito atraso em relação aos países de primeiro mundo, que fizeram isso já nas primeiras décadas do século passado”, explica.
O aposentado Antonio Gonçalves da Cruz, 72, é testemunha disso. Ele lembra que a relação com a escola onde cresceu, em uma área rural em Campo Largo (Região Metropolitana de Curitiba), era frágil. “Escola era uma coisa simples, só para não ficar totalmente sem. Mas as crianças trabalhavam na roça. Tinha dias em que iam para a aula e dias em que não iam. De repente, o próprio pai tirava da escola para trabalhar, e muitos ficavam sem leitura. Hoje, eles sofrem muito”, conta, em entrevista à FOLHA.
Cruz, que não chegou a completar nenhum ano escolar, diz que conseguiu aprender o suficiente para ler e escrever sem maiores problemas. Já a esposa Ivanir não chegou a tanto. “A mãe dela a tirou da escola, porque achava que não adiantava”, disse. “A dificuldade é que, quando ela sai de casa, dependendo de onde vai, a gente tem que sair junto. Fica difícil”, relata.
O pedreiro e carpinteiro Francisco Leal, 59, chegou a concluir o primeiro ano escolar em Pitanga (Centro), mas também viu muitos de sua geração deixarem a escola antes de aprender a ler e escrever. “A gente chegava da escola, almoçava e já pegava a foice e a enxada. Estudar à noite não dava, porque era tudo na base do lampião de querosene. Não tinha jeito”, conta.
O IBGE destacou que também há diferenças nas taxas de analfabetismo entre cor ou raça. Em 2018, 3,9% das pessoas de 15 anos ou mais de cor branca eram analfabetas. O percentual sobe para 9,1% entre pessoas de cor preta ou parda. No grupo de 60 anos ou mais, a taxa de analfabetismo das pessoas de cor branca chega a 10,3% enquanto a das pessoas pretas ou pardas alcança para 27,5%.
QUALIDADE
A Pnad Contínua considera alfabetizado quem sabe ler e escrever um bilhete simples — do tipo “Maria, fui no mercado”. Para Lima, é preciso ir mais longe, levando em conta diferentes graus de domínio da leitura e da escrita. “É quando se começa a enxergar níveis insuficientes de alfabetização, que chamamos de funcional. Se a proporção de analfabetos absolutos é de 6,8%, ela chega a 29% de analfabetos funcionais na população entre 15 e 64 anos”, explica. “Não basta só tirá-las do analfabetismo absoluto. É preciso dar o mínimo de condições e habilidades para tirá-las do funcional. Caso contrário, é mais ou menos a mesma coisa.”
Veronica Branco, professora do Setor de Educação da UFPR (Universidade Federal do Paraná), também chama a atenção para questões mais complexas acerca da alfabetização. Para ela, não basta melhorar a estatística. “Nós atingimos a universalidade no atendimento às crianças na escola, mas não atingimos a qualidade”, defendeu. “Nossos leitores não leem. Eles dominam a habilidade da leitura e da escrita, mas não a desenvolvem, a não ser para situações de emergência.”
A professora defende que o País tem a obrigação de insistir na alfabetização de adultos, mas diz considerar mais importante o investimento na qualidade da escola e no estímulo à leitura. “Os números da Pnad são apenas mais uma demonstração de que o Brasil não fez o que deveria ter feito na educação. Tem que continuar insistindo, sem sombra de dúvidas. Mas, junto com isso, é preciso pensar em políticas públicas que valorizem a escola, o professor e a leitura”, declara. (Com Folhapress)


