Com chuvas acima da média, alagamentos viram rotina
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quarta-feira, 31 de janeiro de 2018
Lais Taine<br>Reportagem Local 

Os últimos meses foram de muita chuva em Londrina e, com a carga d'água, a cidade tem apresentado alagamentos constantes em diversos pontos, incomodando moradores e comerciantes das áreas afetadas. Alto volume de água, falta de manutenção em bueiros e impermeabilização do solo agravam o problema que é crônico em Londrina.
"Aqui alaga. Não entra água para dentro, mas deixar carro estacionado em dias de chuva não é seguro. Quando chove forte, os motoristas nem arriscam ultrapassar", conta José Luiz Marcondes, 32, funcionário de uma academia na avenida Celso Garcia Cid. A via que liga centro e zona leste é um dos pontos mais afetados.
O secretário municipal de Obras, João Verçosa, afirma que a cidade não tem muitos pontos de alagamento e sim problemas pontuais em períodos de chuvas fortes, quando os bueiros não aguentam a vazão de água. "Não é só a boca de lobo, mas é que o volume de água previsto para um mês, cai em duas ou três horas em Londrina. Então não existe sistema de captação que aguente uma tromba d'água dessa. É um volume muito grande em um curto espaço de tempo", afirma.
A agrometeorologista do Iapar (Instituto Agronômico do Paraná), Heverly Morais, confirma as pancadas em abundância. Desde o dia 20 de dezembro, Londrina teve apenas nove dias de estiagem. "Do dia 20 de dezembro até agora já choveu 696,8 mm, isso é volume de chuva maior que o de três meses intensos", informa. De acordo com a especialista, a média mensal histórica para janeiro é de 220 mm, mas em 2018, o volume ultrapassou os 408 mm, apenas 10 mm a menos que o recorde do mês de janeiro de 2016.
Além do volume e frequência das chuvas, o município enfrenta a demanda de manutenção dos bueiros. Segundo Verçosa, a média de limpeza efetuada é de 200 bueiros por mês, mas há 4.200 mil pedidos registrados, dos quais conseguiu cumprir, até o fim do ano passado, 2.600 mil. O secretário afirma que a equipe é reduzida e que só há dois caminhões para o auxílio: um está quebrado e, na análise de Verçosa, o custo do conserto seria inviável, e o outro estava em manutenção até a semana passada, mas já voltou à atividade. Como a equipe não está conseguindo atender a demanda, a secretaria estuda a terceirização do serviço.
Enquanto isso, os moradores do bairro Cervejaria (zona leste) vão convivendo com o problema. A rua Dom Fernando enche mesmo sem ter grande volume de água. "Qualquer chuva alaga e demora de 3 a 4 horas para escoar tudo", afirma Edson Feliciano Vieira, 36, apontando a boca de lobo entupida. Para quem tem comércio na via, a situação prejudica também o bolso. "Aqui vira um rio, a água chega na porta. Não tem como a pessoa entrar aqui", lamenta Wilson Cardoso, 59, dono de bar.
A rua Joaquim de Matos Barreto, ao lado do Lago Igapó, já se tornou cenário comum do problema. "Aqui, se chover 20 minutos sem parar já alaga. Teve situação em que duas pessoas tentaram atravessar e ficaram paradas, o bombeiro veio socorrer", recorda Sebastião Francisco de Paulo, 56. O problema no local é apontado pelo secretário como estrutural, já que deveria ter uma faixa de 60 metros de margem e que não há desnível suficiente para que a água da rua vá para o córrego.
Nesta ocasião, Verçosa lembra que o assoreamento do Lago Igapó também agrava o problema, diminuindo a capacidade de reservação de água. Com a impermeabilização do solo, a enxurrada desce para o local, levando lixo, terra e resíduos de obras do entorno. "Quando chove, vem aquela água barrenta lá de cima, essa terra vai cair no lago e vai provocar o assoreamento. Esse monte de construção sendo feita, queira ou não queira, acaba agravando a situação", argumenta.

IMPERMEABILIZAÇÃO
A secretária do Meio Ambiente, Roberta Queiroz, enfatiza a questão da impermeabilização do solo, ressaltando a importância da arborização urbana e da obrigatoriedade dos 20% de área permeável nos terrenos, que tem a função de drenar a água, evitando que escorra para o sistema hídrico. "Esse resíduo que vem é quase uma lavagem urbana que vai para nossos rios", destaca.
Além disso, Queiroz informa que Londrina tem um problema muito sério com descarte de resíduos em fundos de vale, provocando entupimentos e represamento de tubulações. "Desde resíduos de construção civil, garrafas pets e também de podas que as pessoas têm o costume de descartar em fundos de vale. Além de toda a poluição gerada, a cidade fica feia", afirma.
Problemas vão além de poças d'água
Demerval Anderson do Carmo, coordenador adjunto da Defesa Civil em Londrina, relata que entre os meses de outubro e março, os chamados com relação a chuvas aumentam em até 40%. Segundo ele, a zona sul é a que possui maior demanda. Sobre os alagamentos, ele aponta que em alguns pontos o problema é recorrente, como Lago Igapó 2, próximo à rua Joaquim de Matos Barreto; avenida Ayrton Senna; rua Prefeito Faria Lima e avenida Brasília, próximo à rua Winston Churchill. "Esses são os pontos que neste período chamaram a atenção, mas depende de onde ocorrem mais chuvas na cidade", afirma o coordenador.
No entanto, as chuvas fortes e ininterruptas trazem outros problemas, como os deslizamentos de terra. "Jardins Franciscato, União da Vitória e Cristal são bairros onde situações graves acontecem", explica Carmo. Quedas de galhos e troncos de árvores e destelhamento de casas também são questões que levam o acionamento da Defesa Civil, que, no mês de janeiro, registraram 32 ocorrências.
No trânsito, o IPPUL (Instituto de Pesquisa e Planejamento Urbano de Londrina) e a CMTU (Companhia Municipal de Trânsito e Urbanização) não souberam informar o número de veículos nas vias durantes temporais, mas a CMTU afirma que há um maior chamado para atender as questões de semáforos desligados por conta de quedas de energia e também dos desvios no trânsito ocasionados pelos próprios pontos de alagamento. Além disso, alguns trabalhos de manutenção da cidade, como pintura nas vias e podas de árvore, precisam ser paralisados no momento da chuva, retornando às atividades quando o clima permite.
Até mesmo no campo, onde a chuva é bem-vinda, o volume e frequência da água têm prejudicado as hortaliças, que sofrem por serem mais sensíveis. Em outras produções, o clima torna o ambiente propício para a infestação de pragas e doenças. "A nossa principal cultura, que é a soja, também está sendo prejudicada, o agricultor não consegue entrar com as máquinas para combater as doenças, assim, aumentam as pragas", afirma Heverly Morais, agrometeorologista do Iapar (Instituto Agronômico do Paraná).


