Brasília, 16 (AE) - A reforma ministerial anunciada hoje deve ser encarada como uma guinada que vinha sendo cobrada do presidente Fernando Henrique Cardoso, dizem colaboradores próximos ao presidente. Segundo ele, o anúncio da nova equipe marca o início efetivo do seu segundo mandato - até aqui comprometido por crises e escândalos - e reflete sua determinação em retomar as rédeas do governo livre do jugo da coligação de partidos que o reelegeu.
O aspecto mais importante da mudança, frisam, foi a inversão na lógica de comando, antes centralizada na Casa Civil, que perde agora o seu caráter formulador. Essa atribuição passa para a secretaria-geral da Presidência, para a qual foi nomeado o deputado Aloysio Nunes Ferreira (PSDB-SP), que na prática será o articulador político do governo. O preenchimento deste cargo - vago desde a saída de Eduardo Jorge Caldas, no ano passado - é mais um sinal do fortalecimento político do governo.
Nesta nova lógica, o enfoque político da administração torna-se preponderante ao aspecto técnico. "A Casa Civil, que era a mais importante dentro do Palácio fica agora subordinada ao articulador político", explica uma fonte.
A nomeação de um tucano para o cargo fortalece o PSDB paulista e confirma a opção do presidente por seu partido. Foi com lideranças tucanas que o presidente discutiu, nos últimos dois dias, seu novo ministério. E também às lideranças tucanas - o líder do governo na Câmara, Arnaldo Madeira, (SP) e o ministro Pimenta da Veiga, principalmente - delegou a atribuição de ajudá-lo na sondagem dos nomes que divulgou hoje.
Apesar de manter inalterado o espaço dos partidos que o apóiam, o presidente redistribuiu o poder entre as legendas. Sobrevivendo a duas tentativas de expulsão - encampadas pelo PSDB e PFL -, o PMDB manteve o mesmo número de cargos no primeiro escalão, mas perdeu poder. Sua principal vitrine política, o Ministério da Justiça, passou para as mãos do jurista José Carlos Dias, que mantém forte identificação com o PSDB paulista, desde que foi secretário de Justiça do ex-governador André Franco Montoro.
O presidente também negou ao PMDB a compensação mais desejada pela perda da pasta da Justiça, e manteve o Ministério da Agricultura nas mãos do PPB. Limitou-se a criar o Ministério da Integração Nacional, que será conduzido pelo senador Fernando Bezerra (RN). A expulsão do PMDB vinha sendo defendida repetidas vezes, interna e publicamente, por lideranças tucanas e pefelistas, mas Fernando Henrique optou por uma solução intermediária: manteve o partido no governo, mas tirou parte da sua força.
Com isso, o presidente pretende reafirmar sua autoridade perante lideranças do PMDB. O presidente nacional do partido, senador Jáder Barbalho (PA), o líder na Câmara, Geddel Vieira Lima (BA) e o próprio ex-ministro da Justiça, Renan Calheiros, estiveram à frente de algumas das crises que paralisaram o governo, como a CPI do Sistema Financeiro e a indicação do diretor-geral da Polícia Federal.
Fernando Henrique manteve com o PFL postura mais pragmática. Mesmo acuado pelo presidente do Senado, Antonio Carlos Magalhães (PFL-BA) - que vem exigindo uma solução para viabilizar a instalação subsidiada de uma fábrica da Ford na Bahia -, o presidente deixou intacto o espaço do partido, cujos ministros sequer figuraram na lista dos que poderiam deixar o governo.
O PFL também pode comemorar a substituição de Clóvis Carvalho por Pedro Parente, na Casa Civil. Além de apoiar o então ministro do Orçamento e Gestão, o partido não desfrutava com o futuro ministro do Desenvolvimento relação de proximidade e confiança. Pragmático, Fernando Henrique manteve inalterado o espaço do PPB no governo. Esvaziado pelo enfraquecimento do ex-prefeito Paulo Maluf - cujo vigor político está comprometido pelos escândalos produzidos na prefeitura de São Paulo e o relacionamento pessoal com o presidente enfraquecido por causa do dossiê Cayman - o partido passa pela reforma ministerial do mesmo jeito que entrou. Sinal de que o presidente não pretende abrir mão de nenhum dos seus aliados.

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