Bogotá, 21 (AE) - O discurso proferido pelo presidente Andrés Pastrana ontem (20), na reabertura dos trabalhos do Congresso, foi elogiado hoje pela maioria dos colombianos - com exceção, evidentemente, dos oposicionistas, sobretudo porque ele criticou muito o desempenho do governo anterior, de Ernesto Samper. As declarações do presidente, de que "as Forças Armadas estão preparadas para a guerra" e de que "a paciência dos colombianos tem limite", lavaram a alma dos que se declaram cansados de ver a guerrilha beneficiar-se do processo de paz, sem contrapartida para o país.
"Foi importante o presidente ter dito que o país tem limites, para que as Farc (Forças Armadas Revolucionárias da Colômbia) não pensem que estamos abertos ao diálogo sem condições e indefinidamente, e que elas podem seguir aproveitando-se da situação", disse ao Estado o presidente em exercício da Bolsa de Valores de Bogotá, Juan Pablo González.
Segundo González, o discurso não afetou a Bolsa hoje. "Só se o processo de paz acabar definitivamente, os reflexos negativos serão sentidos na economia." González elogiou, também
o compromisso com o ajuste fiscal, anunciado pelo governo, que reduzirá seu orçamento, de 45,3 trilhões de pesos (equivalentes a R$ 45,3 bilhões), este ano, para 40,3 trilhões no ano 2000.
O novo vice-presidente do Senado, Ciro Ramírez, confirmou hoje que todas as rubricas sofrerão cortes, com exceção de uma: a Defesa. "As Farc precisam saber que a busca da paz não é uma brincadeira", disse o senador, conservador como Pastrana.
"Os colombianos estão cansados." Esse é o tom geral das declarações. "É preciso dizer às Farc que não continuem brincando com a Colômbia", disse o arcebispo de Bogotá, Pedro Rubiano. O arcebispo condenou as execuções de 11 pessoas, acusadas de "infiltrar-se" na chamada zona de distensão controlada pelas Farc desde novembro, quando o Exército se retirou unilateralmente.
As execuções foram confirmadas pelo negociador-chefe das Farc, Raúl Reyes. A guerrilha também tem usado a área de 42 mil quilômetros quadrados como base para ataques fora dela. Com isso
o governo colombiano passou a insistir na instalação de uma comissão internacional de verificação dentro do território, pouco menor que o Espírito Santo. A recusa das Farc levou ao cancelamento da reunião de segunda-feira passada, que marcaria o início das negociações. "Sem um mecanismo de verificação, o processo de paz não é mais que um exercício estéril em meio à guerra fratricida", enfatizou Pastrana.
Mas não foram só os colombianos que perderam a paciência. "A manipulação cínica do processo de paz por parte das Farc precisa acabar imediatamente", disse hoje o porta-voz do Departamento de Estado, James Rubin. O presidente Bill Clinton declarou hoje seu apoio a Pastrana e disse ser necessário, "para o bem dos países vizinhos", que a Colômbia suprima o crime organizado. Clinton garantiu, ainda, que fará todo o necessário para conter as ameaças à segurança nacional americana, vindas da Colômbia. Os Estados Unidos ofereceram treinamento para mais alguns milhares de soldados colombianos no combate ao narcotráfico, inclusive em zonas guerrilheiras.

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