Colin Powell critica estratégia da Otan Da correspondente Monica Yanakiew
Washington, 17 (AE) - Primeiro negro a chefiar o Estado-Maior Conjunto das Forças Armadas americanas, ele foi consagrado herói da Guerra do Golfo e apontado, numa recente pesquisa, como o "melhor exemplo para os jovens dos Estados Unidos", passando na frente até do papa João Paulo II. É por isso que, quando o general da reserva Colin Powell somou-se às vozes que criticam a atuação da Otan no Kosovo, suas palavras adquiriram um peso especial.
Numa entrevista publicada hoje, Powell disse que a Otan jamais deveria ter descartado a ameaça de enviar tropas terrestres para proteger os albaneses do Kosovo e impedir que o presidente da Iugoslávia, Slodoban Milosevic, levasse a cabo seus planos de limpeza étnica. Depois de quase dois meses de bombardéios aéreos, disse o general, os Estados Unidos e seus 18 aliados não conseguiram "quebrar a vontade política de Milosevic".
Powell também fez críticas veladas ao discurso político ambíguo dos políticos, que "adotam uma retórica do Holocausto"
comparando Milosevic a Hitler, e ao mesmo tempo querem negociar com ele uma solução, que permita o envio de forças para assegurar a repatriação de quase um milhão de refugiados do Kosovo. Segundo ele, essa ambiguidade fortaleceu Milosevic.
O general explicou que, para o sucesso de uma operação militar, é preciso que os governos definam antes "objetivos políticos nítidos e sólidos". E ele comparou os acontecimentos em Kosovo à invasão americana do Panamá, em 1989, e à Guerra do Golfo, em 1991.
No Panamá, lembrou Powell, os objetivos não se limitavam à captura do general Manuel Noriega, mas à derrubada de todo o seu governo e à posse de um presidente democraticamente eleito. "Mandamos 25 mil tropas e perdemos duas dúzias de nossos soldados", contou. Mas a missão foi cumprida: "Até hoje os panamenhos tem um governo democrático", explicou.
Já na Guerra do Golfo, "o objetivo não era chegar a Badgá e derrubar o governo do Iraque, mas retirar as tropas iraquianas do Kuwait" - país que ocuparam em 1990. Apesar de terem recorrido a uma intensa campanha de bombardéios aéreos, os EUA e seus aliados tinham planos alternativos e tropas terrestres prontas para atuar.
Powell lembrou que ele jamais condicionou o envio de tropas terrestres à existência de uma estratégia para retirá-las do local e a garantia de que nenhum soldado correria risco de vida. Apesar de reconhecer que agora a situação é outra - o envio de tropas terrestres depende de um consenso inexistente dos 19 membros da Otan, e não apenas da vontade dos EUA - o general acha que os aliados cometeram erros.
Segundo Powell, ao descartar publicamente o envio de tropas terrestres, a Otan fortaleceu a coesão dos países membros mas enfraqueceu sua posição militar. Foi o mesmo que dizer a Milosevic que ele não tinha motivos para se preocupar - teria apenas que calcular quanto tempo poderia aguentar os bombardeios.
"A desvatangem dos bombardeios aéreos é que, apesar de estarmos castigando Milosevic, será ele que decidirá quanto poderá aguentar", disse Powell. Segundo o general, apesar de a Otan não ter enviado tropas terrestres agora, terá que se preparar para um grande desafio, em caso de vitória: o de garantir a repatriação e sobrevivência de quase um milhão de refugiados albaneses a um Kosovo destruído, antes da chegada do inverno.
O general também comentou a resistência do Pentágono de permitir a utilização de seus helicópteros Apache, colocados à disposção da Otan.
Powell admitiu que não sabe o que aconteceu e que pensava que existia um plano para utilizá-los. Mas esclareceu: "O Apache não é uma arma maravalhia, nem um avião de combate", disse. Segundo ele, é um helicóptero que pode voar baixo e indentificar alvos, mas costuma ser usado numa operação conjunta com tropas terrestres. "Tudo isso deve estar sendo levado em conta", concluiu.





