O secretário de Estado da Saúde, Armando Raggio, reconheceu ontem que Paranaguá vive uma epidemia de cólera, com risco de se transformar numa endemia em todo o Paraná. Para que a doença não passe a fazer parte do cotidiano da população - a exemplo do que ocorre no Nordeste do Brasil, onde a cólera matou 23 pessoas este ano -, as autoridades de saúde passam a intensificar uma campanha de alerta e educação em todo o Estado. O boletim oficial de ontem reafirmou a morte de três pessoas e confirmou o avanço dos casos de 98, no dia anterior, para 107 até o final da tarde. A morte de uma mulher na madrugada de ontem está sendo investigada como mais uma suspeita de vítima da cólera.
O governo do Estado, que até anteontem não admitia a epidemia da doença, mudou de posição depois da chegada da gerente da Vigilância Epidemiológica Por Via Hídrica do Ministério da Saúde, a enfermeira sanitarista Rejane Alves. A epidemiologista, que chegou anteontem a Paranaguá, trabalha na prevenção e combate da cólera no Nordeste desde 1992. Para ela, a única forma de evitar que a doença se torne endêmica no Estado é através de investimento maciço em saneamento. ‘‘Não só no Paraná, mas em todo o Brasil’’, afirmou.
Kraw PenasOs banhistas parecem não acreditar que possam sofrer contaminação e lotaram as praias do litoralA posição dá uma perspectiva trágica para Paranaguá. Menos de 20% das casas da cidade têm tratamento de esgoto e cerca de quatro mil pessoas residem em áreas de invasão, próximas ao Canal Anhaia e ao Rio Emboguaçu, ambos sob suspeita de ter a presença do vibrião da cólera. O esgoto do Porto, de onde teria surgido a doença, é despejado diretamente no Emboguaçu.
A situação tem se agravado de tal forma que, segundo Raggio, qualquer cidade do interior do Estado pode apresentar cólera na próxima semana. ‘‘Basta que alguém tenha tido contato ou consumido algum produto de Paranaguᒒ, disse. O secretário não descarta também o aparecimento de casos em Curitiba, principalmente pela procura das praias no final de semana e pelo consumo de peixes de Paranguá na Sexta-feira Santa.
Apesar do aparecimento de casos ter diminuído de anteontem para ontem em comparação aos dias anteriores, Raggio disse que o índice de doentes pode ser ainda maior que os 107. Há, pelo menos, 300 suspeitos de estarem contaminados pelo vibrião. Conforme Raggio, os casos não têm sido graves. Isso resulta em duas consequências, segundo ele: ‘‘uma boa, outra ruim’’. A boa é que há menos riscos de mortes. A ruim, é que uma simples diarréia pode ser cólera e não ser levada a sério pela população.
Um exemplo é o conferente Maurício Batista Honorato, 22 anos, que foi internado em coma quatro dias depois de comer uma ostra contaminada pelo vibrião. Honorato começou a apresentar os sintomas no domingo, mas não levou a sério a doença. Na terça-feira, às 11 horas, passou a sentir câimbras e a vomitar. Ficou desacordado, a UTI da Santa Casa, de Paranaguá, das 16 horas às 21h30 do mesmo dia. Ontem, apesar de estar fora de perigo, ele era o paciente em estado de saúde mais grave dos seis que continuavam internados.Kraw PenasPerspectiva trágicaEm Paranaguá, menos de 20% das casas têm tratamento de esgoto e 4 mil pessoas residem em áreas de invasão, próximas ao Canal Anhaia e ao Rio EmboguaçuPara não ter o mesmo destino de Estados do Nordeste, onde a cólera já matou 23 neste ano, governo intensifica campanha de informação

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