Colecionar santos vira mania nacional
Agência Folha
Receber cartões postais de santos pela Internet. Comprar santinhos para pagar uma promessa e recebê-los em casa, entregues por um motoqueiro. Ter várias imagens em casa, apesar de não ter religião. O culto aos santos deixou de ser coisa de católicos e virou moda.
Entre os fanáticos por Internet, a mania agora é votar em quem vai ser o padroeiro da rede. Os santos estão presentes em vários lugares que não têm nada a ver com igrejas, dos restaurantes mais badalados de São Paulo às faixas agradecendo a santo Expedito espalhadas pelas ruas. Segundo Porfírio de Almeida, dono da gráfica Santanna, especializada em santinhos, Expedito é o santo do momento.
Há uns quatro anos era são Judas Tadeu, diz. O serviço da gráfica é prático. É só fazer o pedido por telefone que ele é entregue por um motoqueiro. Outra gráfica especializada em santinhos, a Santo Expedito, imprime cerca de 200 mil santos por dia.
Os fanáticos por santos nem sempre são católicos. Sou espírita, mas tenho várias imagens de santos. Acho que eles são espíritos elevados,, diz o estilista Marcos Nasci, 27 anos. Marcos já fez camisetas com a imagem de São Jorge e Nossa Senhora Aparecida e quer preparar uma coleção toda inspirada na vida de Jesus.
A artista plástica Inês Zaragoza é outra que adora imagens de santos. Ela faz artesanalmente relicários que viraram mania entre os descolados de São Paulo. Me apaixonei pelos relicários e comecei a ler muito sobre os santos, mas não faço pela religião e sim pelo resgate do folclore. Inês vende uma média de 50 relicários por mês e suas peças estão expostas em lugares badalados da cidade, como o restaurante Namesa, nos Jardins.
As medalhas de santos e as imagens usadas como decoração também viraram moda. A jornalista Raquel Affonso, 26, tem seis imagens na sala de sua casa, mais algumas velas de votos religiosos. Ela também adora as medalhas. Usava um colar com sete medalhas. Só que ficou tão pesado que arrebentou. Raquel se considera católica. Só que misturo o catolicismo com outras religiões.
Segundo o psicanalista e psiquiatra Álvaro Ancona, as pessoas estão atrás de um resgate da espiritualidade. Isso pode acontecer de várias formas. Tem gente que procura os santos, duendes ou Paulo Coelho. Mas o fato é que todos estão procurando uma espiritualidade que se perdeu, diz. O fim-de-século, segundo ele, tem uma influência nisso. O fato de estarmos no final do século exacerba as questões existenciais, como a passagem do tempo e outras questões básicas. Isso também leva a uma busca da espiritualidade.
Segundo Fernando Altemeyer Junior, vigário da Arquidiocese de São Paulo, o culto aos santos não aumentou. Não há nada de novo, a mídia é que está preocupada com isso , diz. Mas, de acordo com ele, há um catolicismo mercantil. Existe muita picaretagem. Isso de falar que se você fizer mil cópias da imagem de um santo vai ter sucesso é anti-religioso e não tem nada a ver com os preceitos da Igreja Católica, diz.
Para ele, as pessoas estão fazendo uma espécie de supermercado de fé. Elas pegam santos, escapulários, cristais, Paulo Coelho, gnomos e colocam tudo no mesmo saco.





