Rio, 18 (AE)- Se foi para testar o mercado, depois da desvalorização do real, o leilão de arte que aconteceu na noite de ontem, no Copacabana Pálace, na zona sul da cidade, mostrou que os colecionadores não foram afetados ou já se recuperaram do baque. Ao menos esta é a opinião do leiloeiro Evandro Carneiro, e do diretor da Bolsa de Artes, Jones Bergamin, que promoveu o evento. "O preço dos artistas contemporâneos e dos modernos (do século 20) acompanharam a alta do dólar", explicou Jones.
"Só os do século passado mantiveram seus preços em real
mas esta retração é uma tendência geral do mercado." Veio gente de Belo Horizonte, São Paulo e Rio Grande do sul para disputar um acervo que incluía óleos e desenhos de Portinari, Di Cavalcanti, Milton Dacosta, Manabu Mabe, Volpi, Siron Franco Teruz e Guignard, além de um Salvador Dali, de 1968, uma faiança de Picasso, e três esculturas de Bruno Giorgi. Segundo o leiloeiro paulista Roberto Magalhães Gouvea, que veio assistir ao pregão, é no Rio que se encontra a maior parte do acervo enquanto os compradores se concentram em São Paulo.
Apesar do otimismo de Carneiro e Bergamin, a grande estrela do leilão, o quadro Índia Carajá, um óleo sobre madeira de Portinari de 1961, foi vendido por R$ 148 mil, R$ 2 mil a menos que o lance mínimo. "Mas esta não é uma das melhores obras dele, apesar de ser um quadro sem defeitos", explicou o marchand Jean Boghicci, o decano em sua profissão, que foi lá conferir o pregão. "Portinari é bom quando pinta cenas de trabalho ou do interior, coisa que ele viu e viveu."
Boghicci confessou que havia comparecido para comprar um Guignard, um retrato feito em óleo sobre madeira, que acabou sendo levado por R$ 35 mil, menos que o preço máximo, mas após muita disputa. O desenho "A Negra", de Tarsila do Amaral, feito para a capa do livros Feuilles de Route, do poeta suíço Blaise Cendras, foi uma das surpresas, pois alcançou R$ 30 mil, após muita disputa. Mas os mais inesperados foram o óleo sobre tela, Salomé no Rio, de Siron Franco, vendido a R$ 17,5 mil, quase o dobro do lance mínimo, e uma fachada de Volpi, que ultrapassou em R$ 10 mil, os R$ 90 mil do lance máximo.
"Os compradores não estão mais pensando só na qualidade e no prestígio do artista, mas também na beleza do quadro", sugeriu Jones Bergamin para explicar a preferência do público por estas obras. No caso de Siron Franco, sua valorização se deve também ao fato de ele já estar sendo negociado em leilões no exterior, o que aumenta seu preço no mercado interno. Já Evandro deu uma explicação prosaica para o pequeno preço da Índia de Portinari: "Foi o último lote do leilão e o público já estava cansado ou sem dinheiro", disse. "Mas essa é a graça dos leilões, poder comprar uma peça valiosa por um preço acessível".

mockup