Cola de cobra oferece menos riscos
PUBLICAÇÃO
domingo, 18 de novembro de 2001
Valdir Sanches<br>Agência Estado - De São Paulo 
A cola cicatrizante que a medicina procura desde a 2 Guerra Mundial (1939 - 1945) pode estar no Brasil. Colas cicatrizantes existem há pelo menos 30 anos, mas elas têm problemas. O mais comum é que sejam feitas com sangue humano, sujeito a contaminar quem as recebe. A nossa não padece desse mal: é feita de veneno de cobra.
A característica justifica sua origem: foi desenvolvida no Centro de Estudos de Venenos e Animais Peçonhentos (Cevap) da Univesidade Estadual Paulista (Unesp) de Botucatu, a 247 quilômetros de São Paulo. Essa cola feita com o veneno da cascavel tem qualidades incomparáveis: a aplicação é rápida, não causa inflamação, acelera a cicatrização e propicia melhor resultado estético.
Um bom exemplo disso pôde ser observado em pacientes com câncer de pele. No interior, há muito lavrador com a doença, por se expor longamente ao sol. O nariz é um ponto muito afetado. O procedimento é retirar a lesão (o tecido atingido) e, em seu lugar, colocar tecido saudável. Como experiência, os médicos retiraram o tecido saudável dos dois lados do rosto, para aplicá-lo ao nariz. Depois, repararam um dos lados do rosto, o direito (num dos casos), com sutura normal: costuraram com agulha e linha cirúrgicas. No lado esquerdo, as bordas do tecido foram juntadas e coladas com umas poucas gotas da cola.
O lado colado ficou inteiramente recuperado em sete dias, sem deixar marcas. No outro lado, o suturado, houve inflamação, a recuperação demorou muito mais e ficaram os ''xis'' das marcas dos pontos. ''Inicialmente testamos a cola em 26 doentes e o resultado foi muito bom'', diz Silvia Regina Sartori Barraviera, professora-assistente doutora do Departamento de Dermatologia da Unesp. Mais tarde, uma dentista de Bauru testou, na região, a cola em enxertos de gengiva aplicados em 15 de seus clientes. Num dos lados da arcada dentária, ela fixou o enxerto com sutura. No outro aplicou a cola. No lado colado, a cicatrização foi mais rápida e melhor e o desconforto pós-operatório menor.
Apesar dos benefícios, a cola não é usada como rotina nem no hospital da Faculdade de Medicina da Unesp. O que falta é que uma empresa se interesse em industrializá-la, já que os pesquisadores só têm interesse científico. Apesar disso, a Unesp fornece um kit para interessados.
A professora Barraviera conta que as primeiras colas feitas com sangue (chamadas colas de fibrina, sendo este um componente do sangue) surgiram por volta de 1970. Usavam sangue humano e derivados de sangue animal. Essas ainda estão no mercado internacional, apesar dos riscos de transmitirem, pelo sangue humano, doenças como Aids, sifilís, hepatite. Nos Estados Unidos, acabaram proibidas. ''No comércio brasileiro, hoje, só existe cola com componente humano ou do tipo bond'', diz Barraviera. ''A cola bond, que é um cianoacrilato, um produto químico, não fisiológico, pode causar efeitos colaterais.''
A professora diz que, para a cola funcionar, é preciso haver ''duas áreas cruentas'', sangrentas. Essas áreas são unidas e gotas da cola pingadas sobre elas. A cola forma uma rede de fibrina, algo semelhante ao que acontece quando uma pessoa corta o dedo e começa a cicatrização. Só que, neste caso, o processo é bem acelerado. ''O uso da cola é ilimitado'', diz Barraviera. Em cães, está sendo testada para colar a retina.


