A lancha verde da Polícia Federal interrompe o silêncio do Rio Solimões e desperta a curiosidade de índios e pescadores: a maioria não sabe que há um mês estão sendo inspecionadas qualquer pessoa ou embarcação que desça o rio em direção a Manaus.
Vários quilômetros mais abaixo, onde o Solimões tem uma largura de mais de 1,5 km, está a Base Anzol, ponto fluvial estratégico pelo qual devem passar todos os barcos que saem da fronteira tríplice que abrange Tabatinga, no Brasil; Leticia, na Colômbia; e Iquitos, no Peru.
Nesta parte do rio, dezenas de policiais inspecionam em busca de droga sem deixar passar nada, de uma canoa indígena até os grandes barcos de passageiros que navegam três vezes por semana.
Anzol é um dos sete pontos estratégicos da Operação Cobra da Polícia Federal, um plano que recebeu uma verba de 10,4 milhões de dólares e é destinado a impedir a entrada de droga pelos 1.644 km de fronteira entre Brasil e Colômbia.
Seu objetivo são os rios amazônicos e o controle das avionetas, que podem transportar droga. ‘‘Não tememos a guerrilha porque não tem a capacidade de nos amedrontar e, além disso, o Brasil não é seu objetivo. Mas pode produzir-se uma onda de imigração de narcotraficantes que vamos impedir. Atualmente não existe um grande risco mas é preciso prevenir enquanto é tempo’’, assegura Mauro Espósito, chefe da Operação Cobra.
No ano passado, a Colômbia produziu 520 toneladas de cocaína das quais 6 foram confiscadas lá e outras seis no Brasil.
Neste ponto do rio, os policiais federais já encontraram droga dentro de santos de cerâmica, em frascos de xampu, impregnada em roupas. Ouviram dizer que os índios recebem US$ 100 para transportar vários quilos de cocaína nas costas por alguns quilômetros em meio da selva para escapar destes controles.
Um barco pesqueiro se aproxima descendo o rio. O capitão já passou outras vezes por ali e sabe que tem que parar. Durante uma hora dois oficiais inspecionam as câmaras de gelo, os depósitos de combustível, camarotes, banheiros, roupas, livros e produtos de higiene pessoal.
Os policiais possuem as listas de passageiros para controlar quem sobe e quem desce com frequência, fiscalizam o combustível e contam como principal instrumento de trabalho um potente radar que controla ambas as margens dos rios.
A maioria das pessoas detidas em Tabatinga, na base Anzol e nos arredores são moradores locais, gente movida pela pobreza imperante ou pelo desejo de ganhar dinheiro fácil. Alguns não sabem o valor do pacote que transportam, nunca ouviram falar da Operação Cobra, das Farc ou do Plano Colômbia.
‘‘Sabemos que não são traficantes, apenas pobres diabos que ganham US$ 100 para arriscar a vida. Eles não são nosso objetivo, nossos serviços de inteligência têm contactos com Peru e Colômbia e aspirações maiores’’, dizem os funcionários da Polícia Federal. (F.P)