São Paulo, 19 (AE) - Com o anúncio veiculado hoje nos principais jornais do País, a AmBev, empresa criada a partir da fusão da Brahma com a Antarctica, trouxe a público aquilo que os consumidores e o mercado em geral desconfiavam, mas nunca ninguém quis assumir nos setores de cerveja e refrigerantes: o Grupo Coca-Cola é o dono da Cervejarias Kaiser.
Observando a participação dos acionistas no organograma da Kaiser, não é possível enxergar isso, já que a norteamericana Coca-Cola Company detém 10%, a holandesa Heineken - segunda maior cervejaria do mundo - 14%, e os 76% restantes estão nas mãos de 21 engarrafadores ou distribuidores da linha de refrigerantes da Coca-Cola.
No mercado, executivos que acompanham atentamente a briga das rivais - AmBev e Kaiser - comentam que, embora o grupo de engarrafadores da Coca-Cola tenha posição majoritária na Kaiser, dona de um faturamento de R$ 1,3 bilhão no ano passado, a orientação estratégica da cervejaria é dada pela Coca-Cola. E mais: a briga comprada pela Kaiser com a AmBev faz parte desse jogo, no qual quem dá a cara para bater é exatamente a cervejaria.
Procurado hoje pela AGÊNCIA ESTADO, o Grupo Coca-Cola não quis se pronunciar sobre o assunto. Na Kaiser, Humberto Pandolpho, presidente da companhia, que tem estado na linha de frente do ataque à AmBev, passou o dia em reunião - sem poder atender a reportagem.
A Kaiser dispôs de R$ 5 milhões para mostrar à população que a AmBev, se aprovada pelo Conselho Administrativo de Defesa Econômica (Cade), deverá dominar o mercado de cerveja, pois terá mais de 70% de participação nacional. Depois de pôr no ar anúncios em que critica a fusão, Pandolpho autorizou dois comerciais de televisão na semana passada nos quais mostra que sua cerveja é nota dez, enquanto todas as outras são iguais.
A Ambev tentou derrubar a campanha publicitária no Conselho Nacional de Auto-Regulamentação Publicitária (Conar), mas teve o pedido indeferido. Diante disso, a AmBev resolveu também ir ao ataque, batendo firme na Kaiser: "Vendas casadas de Coca-Cola serão menos eficazes diante das novas opções da marca AmBev para os pontos-de-venda."
Venda casada - O termo venda casada é utilizado quando determinado fabricante impõe a venda de um produto, desde que o comerciante leve um outro. Vale a pena relembrar que a Kaiser nasceu em 1982, depois que o empresário mineiro Luiz Otávio Poças Gonçalves, dono de uma engarrafadora Coca-Cola, resolveu ter um produto para enfrentar as cervejarias Brahma e Antarctica
que utilizavam as chamadas vendas casadas.
Esse tipo de negociação ocorria porque a produção de cerveja, na época, não era suficiente no Brasil. As cervejarias aproveitavam-se desse fato para "empurrar" refrigerantes aos comerciantes.
Ao observar que o negócio de refrigerantes poderia crescer se a empresa tivesse uma linha de cerveja, Poças foi à Atlanta (nos Estados Unidos), matriz da Coca-Cola, tentar conseguir investimentos para montar uma cervejaria. Trouxe apenas US$ 1, disse ele à época. Ainda assim, a primeira unidade da Kaiser de Minas foi montada.
Se os norteamericanos não colocaram dinheiro num primeiro momento, depois a compra de ações foi fundamental para o crescimento da companhia - hoje com sete unidades industriais, principalmente no Sul do Brasil. A Coca-Cola e a Heineken adquiriram participação na empresa, que cresceu gradualmente para os atuais 10% e 14%, respectivamente. Outros engarrafadores também adquiriram participação na Kaiser nesse período.
Hoje, direta e indiretamente, a participação da Coca-Cola na Kaiser é de 25%, segundo relatório feito no ano passado pela Corporate Debt Research, do ING Barings. Entre os grandes engarrafadores do Sistema Coca-Cola está a Spal, dona de 25% do produção brasileira de refrigerantes e pertencente ao grupo panamenho Panamco, que tem entre outros acionistas exatamente a Coca-Cola Company.
Apesar de contestar a criação da Ambev, a Kaiser esteve bem perto de unir-se à Antarctica. Um executivo que conhece de perto a vida da Kaiser confirmou ao Estado que acionistas da empresa chegaram a negociar uma fusão com a Antarctica dois anos atrás.
Tentativa - Uma grande consultoria internacional fez levantamento dos ativos e outros números para efetivar o negócio. "A idéia era oferecer aos comerciantes uma linha composta de refrigerantes Coca-Cola,Guaraná Antarctica e cerveja Kaiser-Antarctica", relembra.
Segundo ele, o negócio não saiu porque alguns engarrafadores não aceitaram fechar o negócio. "Creio que foi aí que o presidente da Brahma, Marcel Hermann Telles, visualizou a fusão com a Antarctica."
Em conversas anteriores, o presidente da Kaiser, Humberto Pandolpho, que não estava na empresa na época, disse que não quer relembrar os finados - uma alusão ao executivo que contou essa história.

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