Cobaia transgênica surgiu nos anos 70
O nascimento do primeiro primata transgênico (o macaco Rhesus) representa mais um passo na longa trajetória de aprimoramento das cobaias, que já possibilitou importantes avanços científicos. Exemplo disso é a primeira terapia disponível para o tratamento da fibrose cística, uma doença genética incurável que ataca os pulmões e pode matar.
O primeiro tratamento eficiente só surgiu quando os cientistas conseguiram introduzir em cobaias o gene defeituoso causador do problema. Isso permitiu desenvolver e testar várias terapias gênicas. Uma delas, já usada nos Estados Unidos, é um spray inalável por meio do qual se introduz, periodicamente, o gene correto nas células do pulmão do paciente.
A primeira cobaia transgênica foi desenvolvida no início dos anos 70. Foi um rato com o gene humano para a produção de globina, proteína básica das hemácias. Isso permitiu avanços no estudo de várias anemias. Em 1978, os cientistas introduziram em uma cobaia um número maior de cópias do gene que codifica o hormônio do crescimento, obtendo um camundongo duas vezes maior que o normal. Foi o primeiro passo para a produção, em escala industrial, desse hormônio em animais para uso em seres humanos.
A maior contribuição das cobaias transgênicas foi para o próprio estudo da função dos genes. Isso foi possível com o aperfeiçoamento da técnica do nocaute gênico, que consiste em introduzir um gene que substitui ou modifica um gene da cobaia, produzindo uma mutação. A alteração permite descobrir para que serve o gene. A informação é importante já que o homem compartilha com ratos e camundongos cerca de 92% de seu DNA.
Durante a década de 80, houve um boom de cobaias transgênicas projetadas para expressar doenças humanas. Elas recebiam em seu DNA genes de doenças específicas do homem, com o objetivo de testar drogas ou outros possíveis tratamentos.
Hoje, existem milhares de cobaias transgênicas, projetadas para serem geneticamente propensas a todos os tipos de câncer (sobretudo de mama e pele) ou doenças genéticas já conhecidas (como certas diabetes, distrofia muscular ou de Duchenne), além de obesidade mórbida, doenças cardíacas e até alopécia (ausência de pêlos). Já alteramos cerca de 20% do genoma do camundongo, explica Eliana Abedelhais, especialista em biologia molecular da Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ).
Outras cobaias são geneticamente alteradas para produzir determinadas enzimas capazes de interferir no metabolismo de algumas doenças ou disfunções. Nesse caso, as cobaias transgênicas são usadas para verificar qual o nível de enzimas necessário para bloquear o processo.
Se se constata que determinada enzima realmente impede a manifestação da doença, isso abre a perspectiva para uma terapia gênica na qual os doentes são tratados com essa enzima produzida por transgenia, explica Célia Cardoso, veterinária do Centro de Criação de Animais de Laboratório da Fundação Oswaldo Cruz (Fiocruz). (AE)





