CNI projeta déficit de US$ 1 bi para a balança comercial
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segunda-feira, 25 de outubro de 1999
Por Irany Tereza e Maria Fernanda Delmas 
Rio, 26 (AE) - A balança comercial brasileira deve registrar déficit em torno de US$ 1 bilhão segundo projeção divulgada hoje pela Confederação Nacional da Indústria (CNI), na segunda revisão feita este ano. O resultado contraria todas as previsões do governo, mas segundo empresários do setor exportador, é uma meta mais realista. Para a CNI, mesmo não sendo o que se esperava como consequência da desvalorização cambial, o saldo, se confirmado, significará uma redução de 85% no déficit US$ 6,6 bilhões que ocorreu no ano passado.
Depois de estimar um superávit de US$ 11 bilhões no acordo com o Fundo Monetário Internacional no fim de 98, o governo refez os cálculos para um saldo positivo de US$ 4 bilhões há cerca de três meses. Diminuiu, mais uma vez, para US$ 1,5 bilhão pouco tempo depois e, há cerca de um mês, acabou optando pela perspectiva de equíbrio nas contas, como chegou a divulgar a secretária de Comércio Exterior, Lytha Spíndola.
"O resultado vai contrariar as expectativas otimistas que se desenhavam a partir da desvalorização, mas sem dúvida representa uma melhora", conclui Maria do Perpétuo Socorro, que coordenou o estudo divulgado hoje pelo boletim "Comércio Exterior em Perspectiva", da CNI. Segundo ela, os indícios são de que o resultado entre importações e exportações voltem a melhorar nos últimos três meses do ano e permaneçam com um cenário mais positivo no íncio de 2000.
Ela lembra que, apesar da desvalorização, o desempenho das exportações foi atropelado por circunstâncias internacionais desfavoráveis. Ao comparar o resultado das vendas externas de janeiro a setembro deste ano com o mesmo período do ano passado, nota-se o crescimento no volume exportado nas principais classes de produtos, mas também uma redução nos recursos arrecadados com as vendas, resultado de uma baixa geral nos preços das commodities internacionais. O setor de semimanufaturados, puxado por produtos como pasta química de madeira, açúcar, alumínio e óleo de soja, é o exemplo mais típico desta situação: elevou em 13,9% a quantidade vendida, mas reduziu o preço total em 18,9%.
Para Luiz Fernando Furlan, presidente do Conselho de Administração da Sadia, a previsão da CNI "foi pé no chão". "O ano está terminando e não dá para ser otimista para 99, ainda mais que o final do ano é um período tradicionalmente importador", argumentou. Ele espera para a partir do ano que vem a melhora no preço das commodities. A CNI trabalha também com outros itens que devem pesar a favor do Brasil no comércio internacional: a recuperação dos mercados asiáticos, a continuidade das vendas para os Estados Unidos, e a redução no ritmo de queda nas vendas para a América Latina, que já está sendo observada.
Para Marcel Telles, co-presidente do Conselho de Administração da AmBev (empresa resultante da fusão entre Brahma e Antarctica), esses processos de recuperação de fornecedores e de contratos não é imediato.
"Além disso, estão aumentando os volumes físicos, mas não os preços ainda, um cenário que pode ser revertido no ano que vem." Representante de um setor superavitário, o de papel e celulose, Paulo Galvão, sócio da Klabin, considera a previsão da CNI em linha com as expectativas gerais. "Os mercados de produtos industrializados demoraram para retomar a clientela", diz.
Esta demora, para Maria do Perpétuo, foi um dos fatores que impossibilitou o alcance das metas estipuladas pelo governo no início do ano. O ajuste nas importações, depois de uma desvalorização cambial, é muito mais rápido, enquanto outros fatores, além do câmbio, têm impacto nas exportações, como a competitividade. "A exportação depende de reconquista de mercado, uma coisa que leva tempo", diz a analista. "Talvez o governo tenha apostado numa recuperação mundial que não ocorreu."


