A Conferência Nacional dos Bispos do Brasil (CNBB) pretende que no próximo ano o Grito dos Excluídos seja uma manifestação latino-americana e, no ano 2000, ‘‘continental’’, abrangendo todas as Américas. Ontem, em Aparecida, no Vale do Paraíba, SP, mais de 80 mil pessoas participaram do ato promovido pela CNBB, que este ano teve como lema ‘‘Aqui é o Meu País: A Ordem é Ninguém Passar Fome’’. A programação começou às 7h30, com a concentração da 11ª Romaria dos Trabalhadores no Porto Itaguaçú, à margem do rio Paraíba do Sul, onde a imagem de Nossa Senhora foi encontrada, em 1717.
A romaria seguiu em procissão, por três quilômetros, até a Basílica Nacional. No pátio externo, foi rezada uma missa pelo bispo de Jales, dom Demétrio Valentini, já que o arcebispo de Aparecida, dom Aloísio Lorscheider, está viajando. Nessa quarta versão nacional do ‘‘Grito dos Excluídos’’ os políticos em campanha puderam participar, mas não discursar. Segundo o prefeito da basílica, padre José Roberto Pereira, ‘‘a voz foi dada para os excluídos expressarem suas reivindicações, protestando contra a política social e desigualdade de classes’’.
O ato contou com a presença de 130 padres, 11 bispos e mais de 100 entidades classistas e sindicais. O assessor das pastorais sociais da CNBB, padre Luiz Bassegio, disse que o ‘‘Grito dos Excluídos’’ vem aumentando a cada ano. Segundo ele, em 95, primeiro ano do protesto, 170 cidades organizaram o seu ‘‘Grito’’, mas neste ano, a adesão foi em 1,5 mil municípios. ‘‘No próximo ano teremos o ’Grito Latino-Americano’ no Dia da Padroeira do Brasil, em 12 de outubro. Já no ano 2000, o ’Grito’ será continental’’, adiantou o assessor da CNBB.
Com palavras de ordem contra o governo de Fernando Henrique Cardoso, a manifestação ‘‘Grito dos Excluídos’’, realizada no centro do Rio, transcorreu em clima pacífico, sob forte acompanhamento da polícia. Durante a passeata, pela avenida Rio Branco, os manifestantes ironizaram a declaração de FHC ligando os sem-terra a plantadores de maconha. ‘‘FHC, maconheiro é voc꒒, gritavam, em coro. Para a Polícia Militar, havia cerca de mil manifestantes e segundo os organizadores, 2.500.
A marcha dos sem-terra, em Salvador, foi adiada em pelo menos duas horas. Os manifestantes haviam programado saídas de quatro áreas estratégicas, mas tiveram a passagem interditada por policiais militares. Os policiais fizeram barreiras para impedir que os manifestantes se unissem aos participantes do desfile da independência do Brasil. A polícia bloqueou a passagem dos manifestantes sob a alegação de que a marcha era de protesto.
O ‘‘Grito dos Excluídos’’ em Porto Alegre teve a presença de políticos e do líder nacional do Movimento dos Trabalhadores Rurais Sem-Terra (MST, João Pedro Stedile. Durante um discurso, Stedile disse que a crise econômica vivida pelo país terá como consequência um forte ajuste por parte do governo, e os principais atingidos pelas medidas serão exatamente os excluídos. Segundo dados dos organizadores, 15 mil pessoas participaram da marcha. A Brigada Militar, porém, estimou em 3.000 manifestantes.
A manifestação em Recife (PE) foi marcada por faixas, cartazes e slogans contra o presidente FHC. ‘‘Fora o governo da fome e da miséria’’ e ‘‘A ordem é não passar fome’’, foram os slogans mais entoados pelos manifestantes. Eles fizeram uma passeata e um ato público no centro da cidade, a cerca de 500 metros do local em que se realizava o desfile oficial do 7 de setembro. Não houve incidentes. Cerca de 6.000 pessoas participaram do ‘‘Grito’’, segundo o MST. Para a PM, foram 2.000. O protesto em Fortaleza (CE) reuniu cerca de 4.000 pessoas, segundo os organizadores da manifestação. A Polícia Militar não fez estimativa do número de participantes.

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