Aparecida,SP, 07 (AE) - O PT e o PDT anunciaram, hoje, no 5.º Grito dos Excluídos, em Aparecida, apoio oficial ao plebiscito popular proposto pela Conferência Nacional dos Bispos do Brasil (CNBB) para saber se o País deve ou não pagar sua dívida externa. O presidente do PT, José Dirceu, e o deputado federal do PDT, Vivaldo Barbosa, que estiveram na manifestação elogiaram a medida. "Além de apoiar, vamos discutir em reunião dos partidos de oposição a possibilidade de novas adesões", informou Dirceu. "A CNBB teve esta bela idéia de lançar a proposta aqui no Grito", avaliou Barbosa.
O bispo de Jales, d. Luiz Demétrio Valentini, ex-responsável pela Pastoral Social da Conferência, foi quem lançou, hoje, a proposta de plebiscito, marcado para abril do próximo ano, nas comemorações dos 500 anos do descobrimento. Valentini apresentou a idéia às cerca de 7 mil pessoas que se reuniram diante do palanque montado no pátio externo da Basília para os atos do 5.º Grito.
"É com muita alegria que recebemos apoio de instâncias políticas", respondeu Luiz Demétrio Valentini, depois de rápida conversa com Dirceu e Barbosa, ao deixar o palanque. Para este bispo o plebiscito, em todo o País, deve ir além da simples pergunta sobre o pagamento ou não da dívida externa brasileira. "Queremos conhecer esta dívida, seus contratos e reais valores", acrescentou Valentini. "Temos de tirar tudo o que está debaixo dos panos e colocar sobre a mesa."
Em sua avaliação, o pagamento da dívida deve ser revisto sobretudo porque compromete o crescimento do País. "Se faltam recursos para impulsionar o desenvolvimento isso ocorre porque nossas energias estão seguindo para pagar os compromissos da dívida." O plebiscito já faz parte da agenda de eventos que vão marcar, para a Igreja, o Grande Jubileu do ano 2000. Por isso, conta também com o apoio do Conselho Nacional de Igrejas Cristãs. "A mensagem do Jubileu é o perdão, como o das dívidas", observou. "O governo não poderá esquivar-se deste debate."
Empolgado, José Dirceu falou que a consulta popular deve ser realizada em mais de 4 mil cidades, mas d. Demétrio não tem ainda números do alcance do plebiscito marcado. Para d. Mauro Morelli, bispo de Duque de Caxias (RJ), o País está sacrificado demais pelo pagamento da dívida. "Os países pobres não devem nada", alega ele. "Já fomos saqueados por muitos séculos e, agora, com a globalização o saque faz-se pela informática, sem soldados ou marinheiros."
Bandeiras - As bandeiras dos manifestantes diante do palanque, onde por duas horas realizou-se o ato do Grito, pediam o afastamento do presidente Fernando Henrique Cardoso da Presidência, tema que não foi tocado pelos organizadores do ato. O protesto, no palanque, foi contra a política econômica do governo, de denúncia ao desemprego, à miséria e ao resultado do julgamento dos militares acusados da morte dos sem-terra em Eldorado dos Carajás.
As bandeiras vermelhas foram distribuídas pela Central Única dos Trabalhadores (CUT), uma das entidades que, ao lado da CNBB, do Movimento dos Trabalhadores Rurais Sem-Terra (MST), da Central dos Movimentos Populares (CMP) e de várias outras, organizaram o protesto em Aparecida. "O Grito de hoje não é para excluir ninguém, é um movimento de inclusão", respondeu d. Mauro Morelli, ao ser questionado sobre as faixas Fora FHC. Mas está na hora dos governantes verem que a situação é de luz vermelha." Outros bispos da CNBB mantiveram também este tom.
Apesar dos poucos discursos, as entrevistas de alguns convidados foram bem radicais. O líder do MST, Gilmar Mauro, avaliou que os protestos de hoje, em todo o País, mostram a falta de um projeto de desenvolvimento por parte do governo. "Estamos caminhando para uma guerra civil, fruto da miséria e da exclusão social", disse ele, em tom de advertência.

mockup