CNBB pede que população seja solidária com sem-terra e critica "omissão" do governo
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quinta-feira, 24 de junho de 1999
Por Hugo Marques, especial para a AE 
Brasília, 25 (AE) - A Conferência Nacional dos Bispos do Brasil (CNBB) fez hoje um "veemente apelo" ao povo brasileiro para que "realize significativos gestos de solidariedade para com os irmãos sem-terra" no dia do trabalhador rural, comemorado em 25 de julho. Ao mesmo tempo em que divulgou a nota
o presidente da Conferência, dom Jayme Chemello, criticou a "omissão" do governo federal e a "conivência" do governo do Paraná com relação às "torturas" e outros tipos de violência contra os sem-terra no Estado.
A nota da CNBB, intitulada "O Clamor que Vem do Campo"
foi redigida por todos os bispos da Presidência da entidade e da Comissão Episcopal de Pastoral. O documento, divulgado hoje durante entrevista coletiva, será enviado em forma de carta ao presidente Fernando Henrique Cardoso, ao governador do Paraná, Jaime Lerner, aos ministros da Justiça, Renan Calheiros, e de Política Fundiária, Raul Jungmann, e ao secretário de Direitos Humanos, José Gregori.
Dom Chemello afirmou que ao pedir para a população manifestações favoráveis aos sem-terra, está apenas sugerindo uma "relação de solidariedade" para aqueles que lutam pela terra no Brasil. O religioso garantiu que não se trata de apoio às manifestações de rua como passeatas ou marchas. "Temos que olhar a saúde e a alimentação destas pessoas", disse o presidente da CNBB. Os "gestos políticos" em favor da reforma agrária, como manifestações populares, segundo ele, ficam por conta "dos interessados".
A mesma carta diz que a sociedade brasileira "não pode ficar alheia à crescente miserabilidade e agonia do povo". Por isso, assinala, a população "precisa mobilizar-se para implantar condições suficientes" que permitam a construção de uma nação soberana, democrática e socialmente justa. "Incentivamos a todos os que estão positivamente comprometidos com esta causa", diz a nota.
No documento os bispos reproduzem um trecho do Documento do Pontifício Conselho Justiça e Paz sobre distribuição de terra
divulgado pelo Vaticano no ano passado. O texto diz que "o adiamento da reforma agrária tira toda a credibilidade a suas ações de denúncia e de repressão da ocupação de terras". Paraná - Dom Jayme Chemello disse que o governo federal é omisso porque não manda investigar a violência que está acontecendo contra os sem-terra no Paraná. O governo do Paraná é conivente, afirmou, ao não admitir que está havendo desrespeito aos direitos humanos no Estado. O governador Jaime Lerner, comentou dom Chemello, não pode dizer que nada está acontecendo, quando há depoimentos e provas documentais de que os sem-terra estão sendo torturados.
O religioso se disse preocupado com os métodos utilizados pela Polícia Militar do Paraná em ações de reintegração de posse no Estado. "Invadir acampamentos à noite não é correto". Dom Chemello discordou ainda do uso de capuzes pelos policiais federais e pela ausência de oficiais de Justiça nas desocupações. "As ações de reintegração de posse têm de ser mais humanas", apregoou. Para o presidente da CNBB, "seria importante que o governo federal desse andamento mais rápido" à reforma agrária.


