Indaiatuba, SP, 15 (AE) - Relatório divulgado hoje, durante a 37ª assembléia da Conferência Nacional dos Bispos do Brasil (CNBB), em Indaiatuba, faz duras críticas ao governo do presidente Fernando Henrique Cardoso. O texto de 60 páginas, que faz uma análise da conjuntura nacional, responsabiliza a atual política econômica pelo desemprego, a volta da inflação e o aumento da violência no campo e nas cidades. "O governo perdeu a credibilidade interna junto ao povo, que acreditava na moeda forte", diz o documento, elaborado pela Comissão de Justiça e Paz (CJP), Instituto Brasileiro de Desenvolvimento e Estudos Sociais (Ibrades) e Instituto Nacional de Pastoral (INP).
"O governo FHC perdeu contato com com os trabalhadores, com a comunidade universitária, com os partidos de oposição e com as lideranças representativas do Judiciário", assinala o documento. Os autores do texto chamam o real de "grande ficção monetária que acaba de ruir". Segundo o relatório, o País encontra-se totalmente exposto aos interesses internacionais. "O Fundo Monetário Internacional (FMI) é hoje o grande e ostensivo mentor das decisões governamentais", afirma.
Para a CNBB, "nunca foram tão altas as taxas de desemprego, a produção industrial é a pior em sete anos, a inflação volta a oscilar, a violência aumenta, e reaparecem os saques". O secretário executivo da CJP, Francisco Whitaker, que ajudou a redigir o texto, diz que o futuro apresenta um "quadro sombrio". Segundo ele, o aumento da violência é o maior sinal da crise socio-econômica. "Estamos descendo por um abismo", afirmou. Omissão - "O quadro é chocante", disse o bispo auxiliar de São Paulo, dom Antonio Celso Queiroz. Para ele, ao opinar sobre questões politico-econômicas, a Igreja não contraria sua missão evangélica. "Se não denunciarmos isso, estamos traindo o evangelho", afirmou. O religioso acha normal a CNBB tratar de temas econômicos. "Não somos especialistas, mas também não somos bobos", disse.
O documento também acusa o governo federal de omissão em relação a reforma agrária e declara apoio ao Movimento dos Trabalhadores Rurais Sem-Terra (MST). "É evidente que o MST fez avançar a reforma agrária", diz o relatório, classificando o movimento como "mobilizador, educativo, eficaz e produtivo". Segundo o documento, o MST "obrigou o governo a tomar importantes decisões práticas".
Para enfrentar a crise, o relatório recomenda algumas "pistas de atuação". De acordo com o texto, o clima político atual "convoca o povo para uma cidadania ativa". Mais adianta assinala que já é possível observar algumas "resistências positivas", como a "mobilização dos governadores". O documento defende uma urgente mudança no rumo das decisões políticas e sociais. "Isso exige forte mobilização e empenho de todas as forças sensíveis".
No texto a CJP sugere à CNBB iniciar um "amplo diálogo com vários setores da sociedade", como Ordem dos Advogados do Brasil (OAB), organizações nã-governamentais (ONGs) e Associação Brasileira de Imprensa (ABI) para debater uma pauta de assuntos. Os autores do texto propõem, ainda, a realização de um levantamento das iniciativas que propiciem melhor qualidade de vida as pessoas. Serra - O ministro da Saúde, José Serra, que esteve hoje no encontro para divulgar a vacinação contra gripe, não quis comentar o documento. "Não vim aqui meter o bico numa reunião da qual não estou participando", disse. O ministro permaneceu cerca de 40 minutos no mosteiro de Itaici, onde acontece a assembléia, e deixou o local sem falar sobre o assunto.

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