CNBB discute diretrizes de evangelização em assembleia
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segunda-feira, 12 de abril de 1999
Por Roldão Arruda 
São Paulo, 13 (AE) - Começa amanhã (14) a 37.ª Assembléia-Geral da Conferência Nacional dos Bispos do Brasil (CNBB). Durante dez dias, cerca de 300 bispos ficarão reunidos no Mosteiro da Vila Kotska, em Indaiatuba, interior de São Paulo. O principal tema da pauta oficial do encontro são as diretrizes de evangelização para os próximos quatro anos. Mas o assunto que deve provocar mais polêmica e mobilizar atenções é a eleição da nova diretoria da CNBB.
Não se trata apenas de escolher nomes. Embora todos os bispos queiram difundir o Evangelho, eles têm divergências sobre como fazer isso e é nas eleições, realizadas a cada quatro anos, que elas são expostas com nitidez. Neste ano as diferenças entre os grupos tendem a revelar-se ainda mais, porque as chapas interessadas em disputar o comando da entidade serão apresentadas de maneira aberta. É a primeira vez que isso ocorre na CNNB, criada em 1952.
Já se sabe que pelo menos duas chapas participarão da eleição, representando os dois principais grupos no interior da organização - os chamados progressistas e conservadores. "Cada grupo tem sua maneira de ver a evangelização", diz o padre Lício Vale, assessor do Secretariado Regional da CNBB no Estado de São Paulo. "As duas são muito ricas e convergem em vários pontos, principalmente no campo da doutrina moral."
Pode-se entender as divergências a partir de pontos específicos. Um deles refere-se ao poder interno. Os progressistas gostariam que a Igreja fosse governada de forma mais democrática, com maior participação do colegiado de bispos nas decisões. Isso significaria a redução do poder da Cúria Romana e do papa e o fortalecimento das igrejas locais, de cada país.
Os conservadores apostam em outra direção: querem a Igreja organizada de forma mais hierárquica, tendo Roma como pólo de impulso. Acham que diante da confusão religiosa que existe hoje, em que um número cada vez maior de pessoas escolhe igrejas de acordo com suas necessidades, o catolicismo deve acentuar sua identidade a partir de Roma.
Para o público externo, a diferença mais notória entre as duas alas é a que trata das questões sociais. Os progressistas, que mostram maior preocupação com o reino de Deus aqui na Terra, estão mais envolvidos com movimentos de transformação social. Durante o regime militar, os bispos dessa ala se empenharam na denúncia das violações dos direitos democráticos. Nos anos 80 ajudaram a construir o Partido dos Trabalhadores (PT). Mais tarde, a Comissão Pastoral da Terra (CPT), ligada aos progressistas, deu origem ao Movimento dos Sem-Terra (MST).
Os conservadores dão prioridade à tarefa espiritual da Igreja. Mas não ficam longe dos projetos de transformação social. A diferença está no viés político. Nos anos da ditadura, havia bispos que apoiavam os militares porque temiam o avanço do comunismo no Brasil. Atualmente há conservadores que elogiam a política fundiária do governo de Fernando Henrique e criticam as ações do MST. Nas eleições, pendem mais para o PSDB do que para o PT.
Papa - Nada disso é estranho à Igreja. Segundo dois dos mais conhecidos biógrafos de João Paulo II, os jornalistas Carl Bernstein e Marco Politi, ele apoiou até com recursos financeiros o movimento Solidariedade, que ajudou a derrubar o regime comunista da Polônia. Por outro lado, freou a ação de bispos da América Latina envolvidos com a Teologia da Libertação
por temer o comprometimento da fé com ideologias de esquerda.
Nas assembléias da CNBB, essas diferenças ficam visíveis nos debates. Na opinião do bispo d. Orani João Tempesta, que dirige a Diocese de Rio Preto, no interior de São Paulo, e é responsável pela área de comunicação do Secretariado Regional da CNBB, essas divergências enriquecem a vida da Igreja: "É a unidade na diversidade."
De acordo com d. Orani, entre conservadores e progressistas existem grupos com posições diferentes, num cenário que não é estático. "A ênfase que um bispo dá a essa ou àquela questão pode variar de acordo com os problemas da área onde atua", explica. "A Igreja encarna todas as realidades."


