Brasília, 11 (AE) - As denúncias sobre as sessões de tortura contra o ex-padre José Antônio Monteiro, que acusa o novo diretor-geral da Polícia Federal (PF), João Baptista Campelo, de tê-las comandado, foram feitas aos militares na década de 1970. O então presidente da comissão central da Conferência Nacional dos Bispos do Brasil (CNBB), cardeal Agnello Rossi, enviou uma carta ao então presidente Emílio Garrastazu Médici, em setembro de 1970, relatando a história, mas não falando do delegado.
"O padre José Antônio Monteiro sofreu realmente torturas e maus tratos, quando esteve detido", afirmou o religioso, na correspondência endereçada ao presidente militar. "Não sou torturador", disse Campelo, rebate Campelo.
Antes, a denúncia havia sido feita numa nota episcopal da Regional Nordeste da CNBB, como reiterou Rossi na carta a Médici e num boletim semanal da entidade. "A Polícia Federal prendeu no dia 6 de agosto, em São Luis do Maranhão, os padres José Antônio Monteiro e Xavier de Maupeau (hoje bispo de Viana, no Maranhão)", informa o boletim, acrescentando que os dois estavam incomunicáveis e que o então arcebispo de São Luis, d. João Mota, "conseguiu licença para conversar com o padre Xavier
mas não com o padre Monteiro".
As agressões sofridas por Monteiro na delegacia da PF em São Luís motivaram uma reunião de três dias da comissão central da CNBB, onde se discutiu até mesmo a versão dada pela polícia à imprensa, na qual Maupeau era acusado de pertencer à guerrilha da Argélia. Na verdade, o hoje bispo de Viana era oficial do exército francês e servia na Legião Estrangeira.
Campelo nega que tenha participado de sessões de tortura contra Monteiro, ex-colega de seminário dele. "Eu desmentí esta informação quando assumi à Secretaria de Polícia Federal e o próprio ministro da Justiça da época, Mauricío Corrêa, hoje ministro do Supremo Tribunal Federal (STF), apreciou, investigou de decidiu: Campelo não é torturador", afirmou o novo diretor-geral da PF.
Na carta endereçada a Médici, Rossi reafirma, por várias vezes, as denúncias hoje apresentadas por Monteiro sem, no entanto, citar nomes de delegados ou responsáveis pelas agressões. "O padre Monteiro sofreu realmente torturas e maus tratos quando esteve detido. Esta afirmação que fazemos se baseia não apenas no depoimento do sacerdote, interpelado por seus superiores hierárquicos, como também na autoridade do documento dos bispos do Nordeste", diz a carta.
Em seguida, a carta relata outras referências às torturas, fundamentando-se no laudo médico e na análise de outros fatos: a proibição ao arcebispo de São Luís de falar com Monteiro, tendo-lhe permitido apenas o ver à distância, a violência das notas divulgadas pela polícia e as algemas que justificariam as escoriações. A Igreja revelou que os ferimentos não poderiam ter sido causados por algemas, uma vez que elas não foram usadas em Monteiro.
Hoje, o Palácio do Planalto voltou a afirmar que o governo não tem nenhuma informação comprovando as denúncias contra Campelo. "O único fato novo é que o presidente recebeu cópias de cartas e declarações da CNBB escritas na época (1970), e, em nenhum momento, esses textos mencionam o nome de Campelo"
disse o porta-voz do Palácio do Planalto, Georges Lamazire. "Fala-se e faz-se protesto pela prisão do ex-padre", acrescenta Lamazire, ressaltando que "a posição, sempre, nesses casos, é de que o estado de direito é baseado na presunção de inocência".
Segundo ele, "o fato de que pessoas sejam objeto de algum tipo de denúncia ou apuração é, sem dúvida, um fato a ser considerado, mas não pode presumir a culpabilidade de alguém com base em afirmação de outra pessoa e, nesse caso, é claramente a palavra de uma pessoa contra a outra, pois Campelo nega (que tenha sido torturador)".

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