Chico Araújo
Agência Estado
De Brasília
O secretário-geral da Conferência dos Bispos dos Brasil (CNBB), dom Raymundo Damasceno, voltou anteontem a criticar os cortes de verbas dos programas sociais feitos pelo governo. Por força do acordo com o Fundo Monetário Internacional (FMI), o País cortou R$ 1,57 bilhão do Orçamento deste ano relativo aos gastos em programas de educação e saúde. A primeira-dama Ruth Cardoso disse, na época, que os cortes não significavam o fim dos programas sociais do governo. ‘‘A necessidade do corte é óbvia’’, disse a presidente do Comunidade Solidária.
Segundo dom Damasceno, a redução dos gastos na área social seria responsável pelas ‘‘diferenças sociais marcantes e escandalosas’’ apontadas no relatório sobre a Situação Mundial da Infância 2000, divulgado esta semana pelo Fundo das Nações Unidas para a Infância (Unicef).
O documento do Unicef revela que o Brasil, apesar de reduzir a mortalidade infantil de 47,8 para 36,1 por mil crianças nascidas vivas, ainda tem 21 milhões de crianças – o equivalente a 35% dos meninos e meninas do País – vivendo em lares com renda per capita igual ou inferior a meio salário mínimo. Ainda, segundo o Unicef, 5,7 milhões de crianças entre 10 e 16 anos estão trabalhando, ao invés de apenas estudar e brincar.
‘‘A situação é vergonhosa, e alguma coisa precisa ser feita’’, admite dom Damasceno, que também defende mudanças na política econômica do governo. ‘‘O governo não pode, sob qualquer hipótese, sacrificar os pobres ao fazer acordos econômicos.’’ Para dom Damasceno, ao tirar dinheiro dessas áreas ‘‘o governo está comprometendo o futuro do País’’.
De acordo com dom Damasceno, a mudança no modelo econômico brasileiro defendida pela Igreja tem a finalidade de garantir, entre outras coisas, a solidariedade aos pobres. ‘‘Só revendo a política econômica é possível mudar esse quadro social degradante existente no País.’’

mockup