O presidente da Conferência Nacional dos Bispos do Brasil (CNBB), dom Jayme Chemello, acusou ontem o governo de ‘‘falta de sensibilidade’’ para com a questão da reforma agrária no País. ‘‘Para os bancos e empresários, há dinheiro, mas para os pobres infelizes, não hᒒ, criticou Chemello, ao fazer um balanço sobre o acordo entre Movimento dos Sem Terra (MST) e o governo, intermediado pela CNBB, o Conselho Nacional das Igrejas Cristãs (Conic) e a Ordem dos Advogados do Brasil (OAB).
Para o bispo, a intransigência da equipe governamental em relação às reivindicações do MST poderá causar-lhe problemas. ‘‘O governo deverá levar muita pancada na cabeça’’, previu Chemello, alertando que os sem-terra poderão desencadear, novamente, uma nova onda de protestos em todo o País contra o atual modelo de reforma agrária. Chemello disse que a CNBB saiu das negociações entre o governo e o MST por ‘‘falta de avanços’’ nas conversas.
Segundo o bispo, o resultado das conversas teve um ‘‘balanço triste’’, mas ressaltou que esse gesto não significa que a CNBB tenha abandonado o MST. ‘‘A Igreja sempre estará à disposição dos sem-terra’’, disse, acrescentando que a entidade está disposta a intermediar futuras negociações com o governo. Em janeiro, por exemplo, a CNBB vai sentar com o governo e o movimento para avaliar se algumas metas anunciadas, como o assentamento de 105 mil famílias este ano, foram cumpridas.
Na opinião de Chemello, o governo está tentando ‘‘criminalizar’’ o MST quando o acusa de desvios de créditos da reforma agrária por meio de cobrança de ‘‘pedágios’’ dos assentados.
Auditorias feitas pelo Incra e a Secretaria Federal de Controle constataram que cooperativas ligadas ao MST vinham cobrando ‘‘pedágios’’ de 3% a 11% dos recursos da reforma agrária. O governo deverá acionar a Advocacia-Geral da União (AGU) para pedir o ressarcimento do dinheiro desviado.
Em nota à imprensa, o ministro do Desenvolvimento Agrário, Raul Jungmann, acusa o secretário-geral da CNBB, dom Raymundo Damasceno, de ‘‘ignorar e distorcer’’ os fatos. Segundo ele, no dia 3 de agosto, o ministério enviou e-mail à CNBB propondo alterações na minuta da ata com os resultados das negociações do dia 20 de julho. Mas até agora, de acordo com o ministro, ‘‘as sugestões apresentadas permanecem ignoradas pela CNBB, num flagrante desrespeito às regras da mediante previamente acertada entre as partes’’.

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