Clonagem humana é coisa de ''Hitler'', diz geneticista
PUBLICAÇÃO
quinta-feira, 11 de abril de 2002
Luciano Augusto Reportagem Local 
O que é um ser humano superior? É preciso tomar muito cuidado ao dizer que poderá haver melhoramento genético da raça humana (com a clonagem). O que é um ser humano superior? A última pessoa que falou isso foi Hitler. Ainda não existem condições de se fazer melhoria genética nenhuma do ser humano. O duro comentário partiu da geneticista da Universidade de São Paulo (USP), Lygia da Veiga Pereira, ao falar sobre a informação que circulou na última semana de que o médico italiano Severino Antinori já estaria fabricando um clone humano.
A especialista em reprodução esteve em Londrina ontem participando de um painel sobre as aplicações da técnica de clonagem na medicina humana e na veterinária, durante a 42ª Exposição Agropecuária e Industrial de Londrina. O evento contou ainda com a participação do pesquisador da Embrapa Recursos Genéticos e Biotecnologia, Rodolfo Rumpf, que criou o bezerro Vitória, o primeiro clone animal brasileiro, em março do ano passado. O especialista em bioética, médico cardiologista José Eduardo Siqueira, o especialista em reprodução animal, veterinário Ernesto Cristovan da Silveira, e o deputado federal Abelardo Lupion também participaram do debate, que teve a mediação do presidente do Instituto Agronômico do Paraná (Iapar), Florindo Dalberto. O painel foi promovido pela Associação das Mulheres de Negócios e Profissionais de Londrina e pela Embrapa.
Para a pesquisadora, ainda não existem motivações sérias o bastante para se clonar gente. A única argumentação possível, segundo Lygia, é a de que a técnica poderia ajudar casais estéreis a ter filhos. Eu sou contra, atualmente, porque a tecnologia não avançou e acho difícil que isso um dia tenha a eficiência e a segurança adequadas. Em animais, como um clone de camundongo por exemplo, mesmo aqueles que achamos que sejam normais vivem menos e desenvolvem obesidade, destacou a geneticista.
Mesmo assim, ela é uma entusiasta da técnica para fins terapêuticos. A clonagem poderá ajudar na regeneração de órgãos e tecidos, trazendo benefícios reais para a qualidade de vida dos humanos. Temos que tomar cuidado agora para criar leis que nos defendam da clonagem reprodutiva sem impedir o desenvolvimento da clonagem terapêutica.
Rodolfo Rumpf, em sua apresentação, explicou às mais de 300 pessoas presentes a importância econômica da clonagem animal. É uma ferramenta potente de multiplicação e o uso dessa ferramenta deverá ser inserido no setor produtivo por equipes multidisciplinares, prestando um serviço aos programas de melhoramento e não uma ferramenta de uso aleatório, porque senão vamos ter problemas, como o estreitamento da base genética, que poderão trazer prejuízos em vez de contribuições, destacou.
Outra vantagem da clonagem em animais, conforme o pesquisador, é a ajuda que ela fornece na técnica de transgenia, ou seja, na produção de animais geneticamente modificados. Esses animais poderão produzir, nos seus subprodutos, biomoléculas para serem usadas pela indústria farmacêutica ou até mesmo fabricarem componentes específicos, como a maternização do leite da vaca, inserindo genes específicos da mulher e deletando alguns genes do animal.
No futuro, o pesquisador aponta que poderão ser produzidos animais resistentes a determinadas enfermidades ou com desenvolvimento físico maior ou com maior rendimento de carcaça. Particularmente acho que daqui a cinco ou seis anos vamos estar chegando com os primeiros produtos transgênicos no mercado, disponibilizando para o setor produtivo ou para o setor farmacêutico, o que já seria uma grande vitória. Mas a massificação disso ainda deve levar entre 10 e 15 anos, antecipou Rumpf.


