Clinton tem poucas probabilidades de reaproximar Índia e Paquistão19/Mar, 21:33 Por Paulo Sotero, correspondente Washington, 19 (AE) - O presidente Bill Clinton iniciou hoje, em Nova Délhi, a mais delicada e menos promissora das iniciativas diplomáticas de seus mais de sete anos na Casa Branca. Nos próximos seis dias, o líder americano, que irá a Islamabad no sábado, tentará convencer os governos da Índia e do Paquistão que ambos os países têm muito mais a ganhar com uma relação de cooperação mútua baseada no comércio do que com a manutenção da hostilidade militar, que já os levou à guerra e custa bilhões de dólares em gastos com armas convencionais e nucleares que poderiam ser aplicados de forma mais produtiva em investimentos na economia. Clinton faz amanhã (20) a primeira visita de um líder americano a Bangladesh, que se tornou independente do Paquistão, com o apoio armado da Índia, em 1971. Diplomatas americanos disseram que não há expectativa de resultados imediatos da missão de Clinton ao que ele próprio chamou, há dias, de "o lugar mais perigoso do mundo". Três acordos de cooperação que Clinton assinará com a Índia nas áreas de energia, meio ambiente e ciência e tecnologia foram calculados "para criar um ambiente para atividades construtivas em outras áreas", disse o embaixador dos Estados Unidos em Nova Délhi, Richard Celeste. Clinton é o primeiro presidente americano a visitar a Índia em 22 anos. O gesto, em si, é simbolicamente importante. Durante a guerra fria, a Índia manteve laços mais estreitos com a União Soviética, enquanto o Paquistão desempenhou o papel do Estado-cliente de Washington. Clinton pretende, segundo seus assessores, usar a viagem para pôr as relações dos EUA com os dois países em rumos que correspondam melhor ao peso de cada um deles no subcontinente asiático e no mundo. Clima favorável - Assim, o líder americano procurará, em palavras e gestos, atender à expectativa dos indianos e abrir a porta para uma nova era nas relações entre os EUA e a democracia mais populosa do planeta. O cálculo da Casa Branca é que o progresso nas reformas pró-mercado que a Índia fez nos últimos anos e o boom econômico que vive hoje criam um clima favorável para a mensagem de Clinton. Boa parte do seu programa de quatro dias na Índia focalizará o setor de alta tecnologia de um país que é um dos grandes exportadores mundiais de software, preenche cerca de metade do déficit de mão-de-obra especializada das indústrias de tecnologia avançada nos EUA e é, nesse setor, motivo de inveja mesmo de nações economicamente mais avançadas. Mas o presidente americano insistirá com as autoridades de Nova Délhi para que a Índia abandone o caminho nuclear para promover seus interesses. Clinton deverá citar o acordo de desarmamento nuclear firmado pelo Brasil e pela Argentina como o caminho a seguir. No mínimo, ele pretende convencer indianos e paquistaneses a assumir o compromisso de não repetir os testes nucleares que realizaram em 1998. Os nacionalistas que já governavam em Nova Délhi iniciaram a série de cinco testes calculando, erroneamente, que intimidariam o Paquistão a aceitar a supremacia da Índia na região e, mais especificamente, sua soberania sobre a Caxemira. Uma força separatista opera na região, com apoio de Islamabad. A disputa, que é antiga, levou o Exército dos dois países a trocar fogo pesado durante dias, no ano passado, com dezenas de mortos de ambos os lados. O fato de ser um presidente em fim de mandato e a rejeição pelo Senado americano, no ano passado, do Tratado de Proibição Total dos Testes Nucleares, complicam a missão de Clinton. "Nova Délhi não está em estado de espírito para aceitar as piedosas preleções (sobre não-proliferação nuclear) de Washington", avisou, na última quinta-feira, o jornal "Times of India", em seu editorial. A passagem de Clinton pelo Paquistão será curta. Ela foi decidida apenas alguns dias antes do início da viagem (para a consternação da Índia) e tem por objetivo preservar a influência dos Estados Unidos num país economicamente falido, que vive hoje novamente sob uma ditadura militar e já demonstrou grande capacidade para ocupar um espaço muito maior do que merece no mapa geopolítico da ásia, alimentando a tensão com a Índia. O Paquistão tem um PIB dez vezes menor do que o do Brasil. Polêmica - Para o governo do general Pervez Musharraf, a visita do líder americano é um gesto de reconhecimento da legitimidade de seu regime. Para Washington, não é. E Clinton deverá deixar isso claro nas horas que passará na capital paquistanesa, insistindo na redemocratização do país. Seu objetivo mais importante em Islamabad é convencer Musharraf que ele não deve confiar em seu potencial nuclear para deter a Índia nem deve entender a disposição americana de cooperar na busca de uma solução negociada para a disputa entre a Índia e o Paquistão sobre Caxemira (que Nova Délhi não aceita, pois considera a Caxemira questão interna) como uma garantia de que contará com a simpatia de Washington na eventualidade de os dois países irem à guerra - uma possibilidade real nos próximos meses, segundo os estudiosos da região.