Clinton sugere poder fazer concessões a Milosevic Do correspondente PAULO SOTERO
Washington, 03 (AE) - Menos de duas semanas atrás, o presidente Bill Clinton e os outros 18 chefes de governo dos países da aliança atlântica afirmaram que a única maneira de suspender o bombardeio contra a Iugoslávia seria a aceitação incondicional, pelo presidente Slobodan Milosevic, de cinco condições inegociáveis: o fim das atrocidades contra os kosovares de origem albanesa, a retirada de suas forças militares e policiais de Kosovo, o retorno de todos os refugiados, a aceitação de uma força internacional formada em torno de um núcleo da Otan para garantir esse retorno e um acordo dando ampla autonomia à província.
Hoje (03) à tarde, Clinton indicou a disposição de mudar os termos de uma solução para o conflito e fazer concessões a Milosevic recebendo, na Casa Branca, o enviado especial da Rússia para a questão do Kosovo, o ex-primeiro-ministro Viktor Chernomyrdin.
O representante russo, que esteve com Milosevic na sexta-feira, disse, ao embarcar em Moscou, que levava uma carta do presidente Boris Yeltsin para Clinton, contendo "propostas concretas" para acabar com o conflito. Chernomyrdin indicou também que, dependendo dos resultados de sua conversa com o líder americano, voaria direto de Washington para Belgrado.
Os sinais conciliatórios dados por Milosevic nos últimos dias - como sua decisão de entregar ao reverendo Jesse Jackson três soldados americanos que tinham sido presos pelos sérvios e a carta que enviou a Clinton por intermédio do pastor - foram publicamente interpretados pela administração como indícios de que o líder sérvio começou a sentir os efeitos dos 40 dias de bombardeios que já demoliram boa parte da infra-estrutura de seu país.
Essa pode ser uma das razões por trás da disposição de Clinton de abrir espaço para a diplomacia, enquanto a Otan intensifica a campanha aérea. Uma outra, menos reconfortante para a Casa Branca, é a crescente ambivalência do Congresso dos EUA diante do conflito.
Na semana passada, num período de menos de 24 horas, a Câmara dos Representantes tomou quatro decisões contraditórias entre si sobre o envolvimento do país na operação punitiva contra Milosevic. Na quinta-feira, os deputados rejeitaram uma proposta de declaração de guerra contra a Iugoslávia, derrubaram uma segunda proposta que obrigaria Clinton a suspender de imediato a participação dos EUA no bombardeio e retirar as forças americanas da operação, condicionaram a mobilização de tropas terrestres à aprovação prévia do Congresso e negaram-se a aprovar uma resolução de apoio à continuação da campanha aérea (a votação terminou empatada, com 213 votos de cada lado).
Na sexta-feira, a Comissão de Dotações da Câmara dobrou, para mais de US$ 11 bilhões, a verba que a administração solicitara para pagar pela guerra - e vários deputados republicanos que haviam votado contra a participação dos EUA no conflito e rejeitado apoiar a campanha aérea votaram a favor do aumento dessa verba.
A confusão deve continuar esta semana: uma proposta dos senadores John McCain, republicano do Arizona, e Joseph Biden, democrata de Delaware, que daria a Clinton "todos os meios necessários" para garantir uma vitória militar em Kosovo parecia hoje destinada ao fracasso. Ao mesmo tempo, ninguém tem dúvidas de que a Câmara e o Senado aprovarão esta semana a suplementação do orçamento do Pentágono, autorizando mais dinheiro do que o Executivo solicitou para continuar uma operação de guerra que ambas casas se recusam a apoiar de forma explícita e inequívoca.





