Clinton homenageia Yeltsin Do correspondente Paulo Sotero
Washington, 31 (AE) - O presidente Bill Clinton homenageou nesta sexta-feira (31) o presidente Boris Yeltsin dizendo que o primeiro líder da Rússia escolhido pelo voto popular entrará para a história como o homem que "desmantelou o sistema comunista e construiu novas instituições políticas sob líderes democraticamente eleitos num quadro constitucional".
"Tivemos nossas diferenças, como na Chechênia", afirmou o presidente dos Estados Unidos, numa nota divulgada menos de duas horas depois de Yeltsin ter dito aos russos, no discurso de renúncia, que deixava o poder seis meses antes do fim de seu segundo mandato porque "a Rússia precisa entrar no novo milênio com novos políticos, com novas faces, com gente nova e inteligente, forte e cheia de energia".
Segundo Clinton, apesar das divergências, "meu ponto de partida e o do presidente Yeltsin foi sempre como os Estados Unidos e a Rússia podem trabalhar juntos para promover seus interesses comuns".
O líder norte-americano disse que, durante os nove anos do governo Yeltsin, um período em que o povo russo enfrentou "desafios sem precedentes para criar novas instituições e construir uma nova vida depois de décadas de corrosivo regime comunista, as relações entre Estados Unidos e Rússia tiveram progresso genuíno: cinco mil armas nucleares estratégicas foram destruídas, nossas armas nucleares não estão mais apontadas contra o outro, trabalhamos juntos para eliminar essas armas em outros estados da antiga União Soviética, as tropas russas deixaram as nações do Báltico e hoje servem, junto com os (soldados) americanos, para manter a paz nos Balcãs".
A declaração de Clinton foi feita também para sublinhar para os norte-americanos a correção da aposta política que ele fez em Yeltsin, no início de seu governo, e que as circunstâncias da saída de cena do líder russo parecem agora justificar.
Com as relações entre Moscou e Washington em fase de esfriamento desde o colapso da economia russa, em agosto de 1998
e com Yeltsin doente e cada vez menos capacitado a exercer o poder no Kremlin, a opção de Clinton pelo líder russo tornara-se alvo de críticas dos adversários republicanos e uma fonte potencial de problemas para a campanha do vice-presidente Albert Gore à Casa Branca.
A decisão de Yeltsin sair de cena no último dia do século foi classificada de "dramática" por um porta-voz americano, menos talvez pela surpresa que causou do que por ter confirmado que o líder russo, apesar de impopular e doente, não perdeu o sentido teatral da política que marcou sua carreira e calculou o gesto para fazer o sucessor que já designara - o jovem primeiro-ministro Vladimir Putin, um ex-agente da KGB e faixa preta de judô, de 46 anos.
Praticamente um desconhecido até ser nomeado por Yeltsin em agosto, Putin assumiu a presidência interinamente hoje, o que deve reforçar sua posição de franco favorito nas eleições antecipadas que devem acontecer dentro de 90 dias.
Putin, que ganhou popularidade rapidamente desencadeando uma ofensiva militar contra os rebeldes separatistas da Chechênia, consolidou sua posição nas eleições legislativas do mês passado, das quais emergiu como o líder do primeiro conjunto de forças políticas centristas saído das urnas na Rússia desde o início da democratização do país.
De acordo com o porta-voz da Casa Branca, a saída de Yeltsin "não era totalmente inesperada". De fato, mesmo antes das eleições que reforçaram a posição de Putin, Yeltsin já era visto em Washington como uma figura quase simbólica e um líder do passado.
Foi por essa razão, por exemplo, que Washington não reagiu às declarações ameaçadoras que ele fez sobre a potência nuclear da Rússia em recente viagem à China. A renúncia de Yeltsin "é um acontecimento muito positivo e um grande alívio, porque você tinha, a cargo do botão nuclear em Moscou, um homem que estava fisicamente e mentalmente incapacitado", disse Keith Bush, a diretora de estudos europeus e asiáticos do Centro de Estudos Estratégicos e Internacionais, em Washington.
Clinton conversou hoje com Yeltsin por telefone. Segundo um porta-voz do Kremlin, o líder russo assegurou ao presidente dos EUA que a Rússia, sob Putin, continuará comprometida com a democracia e o controle dos armamentos nucleares.





