Washington, 12 (AE) - O Senado dos Estados Unidos absolveu nesta sexta-feira (12) o presidente Bill Clinton das acusações de perjúrio e obstrução da Justiça que teria cometido para esconder seu relacionamento sexual com a ex-estagiária Monica Lewinsky.
O veredicto, que já era esperado, encerrou cinco semanas de um impopular julgamento de impeachment que a maioria esmagadora dos norte-americanos considerava desnecessário e pôs um ponto final em um escândalo que consumiu boa parte das energias políticas dos EUA durante mais de um ano.
Tendo acionado a arma nuclear do processo legislativo para tentar tirar Clinton da Casa Branca contra a vontade manifesta da população, os líderes republicanos tiveram na votação a confirmação final de que o tiro saiu pela culatra.
Contados os votos, que foram pronunciados publicamente por cada um dos senadores depois de três dias de deliberações a portas fechadas, os republicanos não conseguiram sequer maioria simples para assegurar uma condenação simbólica do presidente. Dez dos 55 membros de sua bancada juntaram-se aos 45 senadores democratas para absolver Clinton da acusação de perjúrio - rejeitada por 55 votos a 45. Na acusação de obstrução de Justiça houve empate de 50 a 50 votos. Para condenar e remover o presidente eram necessários pelo menos 67 votos, ou seja, dois terços do total. Clinton estava na ala residencial da Casa Branca e, segundo assessores, não acompanhou a votação.
Menos de duas horas depois de ter ouvido a decisão que lhe permitirá concluir os 23 meses que ainda lhe restam de mandato, Clinton falou ao país no jardim da Casa Branca.
Com os olhos avermelhados e ar compungido, disse que estava "profundamente arrependido" pelo que fez e falou durante o escândalo sexual que desencadeou o processo.
"Sinto-me mais humilde e agradecido pelas orações que recebi de milhões de americanos no último ano", afirmou.
"Agora peço a todos os americanos e espero que todos nós, aqui em Washington e no restante do país, voltemos a dedicar-nos ao trabalho de servir a nossa nação e construir um futuro melhor." Perguntado se o veredicto o animava a iniciar uma campanha de vingança política contra seus acusadores, Clinton disse: "Quem pede perdão também tem de estar pronto para perdoar."
Foi nesse mesmo espírito de reconciliação que o juiz-chefe da Suprema Corte, William Rehnquist, que presidiu o julgamento, encerrou o segundo processo de destituição de um chefe do Executivo da história dos EUA. "Deixo o Senado mais sábio, mas não mais triste", disse o chefe do Poder Judiciário, depois de elogiar a dignidade com que os senadores dos dois partidos se comportaram durante as sessões públicas e secretas do julgamento.
Pouco depois, Rehnquist bateu o martelo de madeira na mesa e encerrou a maior crise constitucional dos EUA em décadas e um dos mais lamentáveis episódios da história política do país. Em nome do Senado, o líder da maioria republicana, Trent Lott, deu-lhe o martelo que usou durante o julgamento.
Os 13 deputados republicanos que serviram de promotores do impeachment deixaram em seguida o plenário do Senado, cumprimentando senadores dos dois partidos. "Não tenho nada a lamentar", disse Henry Hyde, o presidente do Comitê de Justiça da Câmara, que comandou os acusadores do presidente.
Hyde rejeitou a idéia de que o processo e o julgamento do impeachment, que envenenaram a atmosfera política de Washington durante meses, tenham manchado a reputação da Câmara, que aprovou os dois artigos de impeachment contra Clinton em 18 de dezembro em uma votação partidária.
Encerrado o julgamento, a senadora democrata Dianne Feinstein tentou forçar a votação de uma recomendação de censura do presidente pelo comportamento. A manobra foi rapidamente rejeitada por republicanos e democratas.
O impacto do impeachment na sociedade norte-americana já é discutido há semanas pela imprensa e continuará sendo assunto de avaliações e análises por meses e anos. O efeito mais óbvio e imediato foi a ampliação dos limites do que era considerado conversa aceitável sobre sexo.
Uma preocupação de senadores e de muitos comentaristas e acadêmicos é que, por causa da natureza das ofensas cometidas por Clinton, a ativação do processo de impeachment possa ter banalizado a principal salvaguarda da Constituição contra os abusos do poder pelo Executivo e transformado o mecanismo de destituição do presidente em uma arma do jogo político partidário.
Clinton certamente saiu diminuído do episódio. Embora sua aprovação como presidente continue alta, as pesquisas mostram que ele não conta com o respeito pessoal de nem 40% dos americanos. Mas é mais difícil determinar se os danos à presidência serão duradouros. Segundo o senador Gordon Smith, republicano de Oregon, que votou contra Clinton nas duas acusações, o fato de o impeachment não ter conseguido o apoio sequer de uma maioria simples contém uma mensagem clara para a Câmara. "No futuro, não enviem artigos de impeachment contra o presidente ao Senado, a menos que estejam absolutamente certos de que podem provar as acusações."
O outro subproduto do impeachment é a derrota política que representa para os republicanos. A tentativa de anular duas decisões do eleitorado e tirar Clinton da Casa Branca levou ao fiasco nas eleições legislativas do ano passado, que deixou os democratas em posição de retomar o controle do Congresso nas eleições de 2002.
Ela encerrou a carreira de um presidente e de um presidente designado da Câmara. Mais divididos do que nunca e sem um programa político claro (o que tinham, Clinton roubou), os conservadores terminam sua investida na defensiva e diante de um adversário unido e motivado pela perspectiva de eleger o vice-presidente Al Gore para o lugar de Clinton e restaurar o poder dos democratas no Capitólio.

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