NAÇÓES UNIDAS, 21 (AE-AP) - O presidente dos Estados Unidos, Bill Clinton, disse hoje (21) que as Nações Unidas devem assumir um papel mais destacado na prevenção de massacres e deslocamento de pessoas inocentes em conflitos onde quer que eles explodam, mas advertiu que a resposta deve ser realista e apropriada.
"Não podemos fazer tudo, em todos os lugares", afirmou Clinton na Assembléia Geral. "Mas apenas porque temos interesses diferentes em diferentes partes do mundo não significa que podemos ser indiferentes à destruição de inocentes em qualquer parte do mundo".
Algumas vezes, pressões econômica e política combinadas com diplomacia é a resposta, disse Clinton. Outra vezes, intervenção militar é exigida, em casos como Kosovo, quando a Otan agiu para parar com a repressão sérvia contra albaneses étnicos.
"Quando estamos diante de campanha deliberadamente organizada para matar todo um povo ou expulsá-lo da terra, o cuidado com as vítimas é importante, mas não suficiente", afirmou Clinton. "Devemos trabalhar para acabar com a violência.
"Meu país continuará trabalhando com nossos parceiros e a ONU para garantir que tais forças possam ser usadas rapidamente quando elas são necessárias", acrescentou Clinton, com uma voz rouca causada aparentemente por alergia.
Os comentários de Clinton tocaram no mesmo tema explorado por muitos dos oradores do primeiro dia de debates da assembléia anual, que concentrou-se no tema da intervenção humanitária - em Kosovo, Timor Leste e áfrica. Além de Clinton, entre os oradores de hoje estão o ministro do Exterior da Rússia, Igor Ivanov, e o presidente venezuelano, Hugo Cháves.
Em seu discurso, Ivanov disse que qualquer decisão de intervir num conflito - por razões humanitárias ou outras - deve ser aprovada pelo Conselho de Segurança, onde a Rússia tem poder de veto. Suas declarações foram uma clara referência à decisão dos EUA e da Otan de lançar ataques aéreos contra a Iugoslávia apesar da oposição russo e sem uma autorização explícita do conselho.
"Em geral, devemos dar um tratamento extremamente cuidadoso a medidas coercitivas, e mais ainda, não permitir que elas se transformem em um mecanismo repressivo para influenciar estados e povos considerados por alguns como não sendo do seu tipo", afirmou.
A Rússia tem laços religiosos e culturais com a Iugoslávia e se opôs veementemente à ação da Otan.
Em seu discurso, Clinton também pediu que no próximo milênio, as crianças de todo o mundo sejam protegidas contra o uso de armas nucleares, químicas e biológicas.
Enquanto ainda espera a ratificação russa do tratado START II, os Estados Unidos e a Rússia estão começando a negociar o tratado START III que iria reduzir seus arsenais nucleares em 80% em relação a seu pico na Guerra Fria, disse Clinton.
"Agora temos de trabalhar para negar armas de destruição em massa para aqueles que possam usá-las", afirmou Clinton, referindo-se aos esforços de uma década para eliminar as armas letais do Iraque.
Enquanto o sofrimento do povo iraquiano tem de ser amenizado, o mundo não pode ficar inerte e permitir que o regime iraquiano ridicularize resoluções da ONU e reconstrua seus arsenais, disse Clinton.
O presidente americano abriu seu discurso na assembléia de 188 membros pedindo às Nações Unidas e seus integrantes para lançar uma "dura batalha" contra a pobreza e pelo compartilhamento da prosperidade.
"Temos de nos recusar a aceitar um futuro no qual uma parte da humanidade viva plenamente numa nova economia, enquanto outra viva na beira de sua sobrevivência", afirmou.
Segundo Clinton, 1.3 bilhão de pessoas em todo o mundo vivem com menos de um dólar por dia.
"Mais da metade da população de muitos países não tem acesso a água segura. Uma pessoa no sul da ásia tem 700 vezes menos chance de usar a Internet que alguém nos Estados Unidos. E 40 milhões de pessoas anualmente ainda morrem de fome, quase tantas quantas morreram na Segunda Guerra Mundial".
Clinton disse que irá promover na Casa Branca uma conferência de especialistas de saúde pública, companhias farmacêuticas e representantes de fundações a fim de encorajar a produção de vacinas para países em desenvolvimento.
O presidente americano também fez referência ao US$ 1.5 bilhão que os Estados Unidos devem à organização mundial, afirmando que ele vai continuar pressionando Washington a cumprir "todas suas obrigações financeiras com as Nações Unidas".
"Faremos o que pudermos para termos sucesso este ano", garantiu.
O presidente peruano, Alberto Fujimori, abriu hoje o segundo dia de debates advertindo que uma aliança entre traficantes de drogas e terroristas estaria ameaçando a tranquilidade adquirida pela assinatura do acordo de paz entre Peru e Equador em 1998.
"Essas atividades criminosas adquiriram de certa forma uma força que é poderosa o suficiente para ameaçar os governos, além de desequilibrar a economia mundial, já que o dinheiro ilegal pode infiltrar em atividades produtivas, comerciais e até mesmo políticas".

mockup