Washington, 27 (AE) - O presidente Bill Clinton aplaudiu a decisão da Corte Internacional de Justiça de indiciar o presidente da Iugoslávia, Slobodan Milosevic, pela deportação forçada de 740 mil kosovares e a morte de 340 outros. Com a proporção dos americanos que criticam a guerra do Kosovo aumentando e sua popularidade pessoal em queda, Clinton afirmou que a ação do tribunal de Haia "diz ao mundo que a causa pela qual estamos lutando em Kosovo é justa".
O líder americano usou a decisão do tribunal - o primeiro indiciamento de um chefe de governo em exercício por violação dos direitos humanos e crimes de guerra pela Corte Internacional - também para responder indiretamente à sólida maioria de americanos que, segundo as pesquisas da opinião, já acha que o conflito durou demasiado tempo e apóia uma pausa nos bombardeios e início de negociações entre a Aliança Atlântica e Belgrado. Para o presidente, o indiciamento de Milosevic "torna claro ao povo da Sérvia precisamente quem é responsável por esse conflito e por seu prolongamento".
Na quarta-feira, assessores da Casa Branca haviam indicado que o indiciamento de Milosevic não impediria representantes dos Estados Unidos e da OTAN de negociar diretamente a paz com o líder sérvio. "Não descartamos contatos adicionais (com Milosevic) para alcançar nossos objetivos e avançar nosso interesse nacional", disse um alto funcionário da Casa Branca ao New York Times. Mas fontes oficiais reconheceram que seria estranho ver negociadores americanos com Milosevic, depois da ação de hoje da Corte Internacional.
Clinton reforçou essa impressão ao deixar sem resposta perguntas feitas pelos jornalistas durante a breve aparição que fez para ler sua declaração: a OTAN deve ou pode negociar a paz com um homem acusado pela comunidade internacional de ser um criminoso de guerra? Ou, alternativamente, deve tentar prendê-lo? A Corte Internacional emitiu ordem de busca e captura contra quatro assessores de Milosevic que também foram indiciados, mas não contra o próprio líder sérvio.
A secretária de Estado, Madeleine Albright, procurou afastar a noção de que a ação do tribunal tenha sido calculada para servir de moeda de troca na busca de um acordo com Milosevic. Acompanhada pelo chanceler do Canadá, Lloyd Axworthy, Albright disse numa entrevista coletiva que não existe nenhuma possibilidade de se negociar a imunidade para Milosevic para garantir o retorno da paz em Kosovo.
Ela afirmou também que o indiciamento "convalida" tudo o que a Otan fez até agora na Iugoslávia. A secretária de Estado não escondeu a esperança americana de que a ação da Corte Internacional de Justiça isole Milosevic em casa e leve à derrocada de seu governo. Num recado claro aos militares e líderes políticos sérvios para se separarem de Milosevic, Albright disse que a Iugoslávia tem hoje um "regime ilegal" e que seus dirigentes serão chamados a prestar contas. Ela afirmou também que Milosevic deveria ser entregue às autoridades internacionais para enfrentar o julgamento na Corte Internacional, na Holanda.
Em suas declarações, Clinton também deu sinais de que a aposta de Washington e da OTAN pode ter evoluído da expectativa de concessões por Milosevic, seguidas de um acordo de paz mediado pela Rússia, para uma aposta em sua remoção do poder. Falando sobre o alto preço que o bombardeio está tendo para o governo de Belgrado, o presidente dos EUA disse que vê o impacto da campanha aérea, que já dura mais de dois meses, "nos protestos (na Iugoslávia) contra suas (de Milosevic) políticas, as deserções em seu exército e as dificuldades que as tropas (sérvias) estão tendo para manter o controle de Kosovo". "Os objetivos da OTAN continuam inalterados", afirmou ele.

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