Clinton diz que bombardeio pode ser suspenso logo Do correspondente Paulo Sotero
Washington, 04 (AE) - Embora os ataques da Otan tenha continuado hoje, o presidente Bill Clinton disse nesta sexta-feira (04) que está "ansioso para acabar com o bombardeio" da Iugoslávia e indicou que isso poderá acontecer tão logo as tropas sérvias atendam à primeira das cinco condições apresentadas pela Aliança Atlântica para encerrar o conflito e comecem a deixar Kosovo.
Uma delegação de generais da Aliança Atlântica deve encontrar-se amanhã com oficiais iugoslavos, na fronteira da Macedônia com Kosovo, para dar-lhes as instruções e o cronograma para a retirada de seus 40 mil soldados da província. A operação que deve durar uma semana.
Se esses contatos transcorrerem sem dificuldades, "então poderemos proceder muito rapidamente", disse Clinton. "Estou animado, mas me sentirei bem melhor quando houver indício de que as forças sérvias estão em retirada e as nossas (forças) estão entrando" em Kosovo, acrescentou o presidente, referindo-se ao contingente internacional de 50 mil soldados que deverá ocupar a província iugoslava de população majoritariamente islâmica para garantir o retorno às suas casas de cerca de 850 mil refugiados e das cerca de 500 mil pessoas deslocadas dentro do próprio território.
Fontes oficiais disseram que, num cenário favorável, o bombardeio aliado que devastou a Sérvia e Kosovo nos últimos dois meses e meio pode cessar já neste domingo. Se for confirmada pela retirada dos soldados, a capitulação sérvia e a vitória dos aliados vingará, ao menos temporariamente, a criticada estratégia que Clinton seguiu durante todo o conflito de travar uma guerra aérea de baixo risco, sem o engajamento de tropas terrestres e com perdas mínimas.
As duas únicas baixas fatais entre as forças da OTAN foram dois pilotos norte-americanos que morreram durante manobras de treinamento com seus helicópteros, na Albânia. Esta é a primeira vez em quinze anos que os EUA fazem uma intervenção militar sem registrar baixas em combate. Esse desfecho pode, também, fortalecer a OTAN e encorajá-la a envolver-se em novos conflitos longe das fronteiras dos dezenove países que a compõem.
Mas, entre os especialistas, o simples fato de o presidente da Iugoslávia, Soloban Milosevic, ter aceito o acordo de paz torna prematuro esse tipo de avaliação. "Se Milosevic conseguir extrair algum tipo de vitória (desse desfecho), esta é uma pausa e não o fim ( do conflito)", afirmou David Reiff, do World Policy Instituto, ao New York Times. "Deus sabe que eu espero estar errado, mas minha impressão é que a guerra é o leite materno de Milosevic e ele não mudou", disse Reiff.
"É o mesmo homem responsável pela guerra na Bósnia, pelas expulsões em massa dos kosovares e pela mortes, que vamos descobrir agora, de muitos e muitos milhares."
A cautela da Casa Branca diante do acordo mostra que o executivo americano faz cálculos semelhantes e considera a suspensão da campanha aérea uma decisão extretamente delicada. "Uma vez tomada, ela deixará os EUA e a OTAN sem seu principal instrumento de pressão sobre Milosevic e não poderá ser revertida, sob pena de rachar os aliados", disse o ex-conselheiro de Segurança da Casa Branca, no governo Carter, Zbigniew Brzezinski. "Eu manteria o bombardeio até o último momento da retirada sérvia", disse o ele.
Brzezinski traduz a preocupação, compartilhada por altos funcionários dos EUA e dos demais dos países da OTAN, bem como por ex-chefes militares e analistas do mundo acadêmico, sobre o risco de Milosevic manipular o pós-guerra em seu benefício e criar situações que ponha a própria coesão da OTAN em risco. O ex-general George Joulwan, que implementou os acordos de paz da Bósnia em 1995, como comandante supremo da OTAN, disse na noite da quinta-feira que "o diabo está nos detalhes" do acordo de paz em princípio anunciado na quinta-feira.
"Ainda não conhecemos todos os detalhes e espero que os comandantes do estado-maior conjunto estejam dando ao presidente conselhos muito claros sobre como levar a cabo o acordo, (a importância) da unidade de comando (da força internacional), as regras de engajamento das tropas, a condução das questões que ainda não estão claras, etc", afirmou Joulwan.
Um dos temores do ex-general é que a força internacional de ocupação de Kosovo, que terá 7 mil soldados americanos deverá atuar sob o comando da OTAN, seja supreendida no fogo cruzado de acertos de conta entre os Exército de Libertação de Kosovo (ELK)
de um lado, e a minoria sérvia da província e kosovares "colaboradores", de outro.
Carl Bildt, que foi o primeiro administrador-civil da Bósnia, advertiu na quinta-feira que "a paz em Kosovo será infinitamente mais difícil do que a guerra". Uma vez completada a retirada sérvia, uma das maiores dificuldades será convencer o ELK e seus 30 mil guerrilheiros a depor as armas. O acordo anunciado na quinta-feira prevê a desmilitarização de Kosovo. O porta-voz do ELK na Albânia, Jakup Krasniqi, disse na quinta feira que o grupo cooperará com a OTAN. Ele acrescentou, no entanto, que foi em parte graças "à resistência" organizada pelo KLA que se chegou ao acordo de retirada dos sérvios. Krasniqi disse também que "é pouco razoável falar em desmilitarização" antes da saída dos sérvios.
Embora os próprios comandantes do ELK admitam que seu contingente diminuirá bastante com o fim do conflito, porque muitos voltarão para suas casas, os estudiosos da região acham improvável que eles concordem em entregar o armamento pesado que tomaram das forças sérvias. Essa discussão será complicada pela principal consequência política da guerra para os kosovares, ou seja, sua determinação de buscar a independência da Iugoslávia e não apenas o retorno ao status de província autônoma que tinham até 1989.
Sem a garantia de uma força de defesa própria num país independente, a maioria dos 850 mil kosovares que buscaram refúgio nos países vizinhos poderão frustrar o grande objetivo do plano de paz, que é convencê-los a retornar para suas casas e recomeçar a vida em meio às ruínas deixadas pelos ataques sérvios e pelos bombardeios da OTAN.
A volta dos refugiados é essencial para a OTAN para reverter a recomposição étnica de Kosovo que Milosevic conseguiu fazer ao forçar saída da província da maioria de seus habitantes muçulmanos de origem albanesa, que compunham mais de 90% de uma população de perto de 2 milhões, e provocar a ação da OTAN, que intensificou o êxodo.
"O que estou ouvindo de pessoas que estão com os refugiados é que muitos escolherão não voltar", disse ao New York Times Walter Mead, do Conselho de Relações Exteriores. "Já é tarde para semear uma nova colheita, suas casas foram devastadas, as estradas estão semidestruídas e o que os espera na volta é o inverno e a fome."
A disposição dos países da OTAN de abrir os cofres para financiar a reconstrução de Kosovo, dos países vizinhos afetados pela onda de refugiados e da própria Iugoslávia - vital para a volta de alguma estabilidade à região - certamente também influenciará a decisão dos refugiados.
Mas também aqui Milosevic pode complicar a paz, se conseguir se manter no poder. O presidente do Parlamento Europeu, José Maria Gil-Robles, disse na quinta-feira à noite que a União Européia condicionará sua ajuda à reconstrução da Iugoslávia à saída de Milosevic.
O governo americano já deu sinais no mesmo sentido, indicando aos líderes sérvios que o caminho mais curto para encerrar o embargo econômico contra o país e receber assistência para a reconstrução é entregar seu presidente ao tribunal internacional de Haia para que ele responda pelos crimes de guerra de que foi acusado no mês passado.





